Dramatis Personae
Abelardo – Um menino de quinze anos
Gêmeo Dita
Gêmeo Lento
Guinga – Um mendigo
Valério – Um pivete
Profeta Jarbas – Um senhor com longa barba.
Daila – Uma prostituta de 30 anos.
Dr. Alonso – Um empresário falido de 50 anos.
Maíra – Jovem de quinze anos.
Mãe – Voz e off.
Bombeiro
Bombeira
Neném
Cenário 1: Uma casa com duas árvores gigantescas ao seu
lado
Cenário 2: Rua
CENA 1
Voz em off – (Mat 22) A parábola dos convidados para as bodas:
“Então Jesus tornou a falar-lhes por parábolas, dizendo:
O reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas
de seu filho. Enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas,
e estes não quiseram vir. Depois enviou outros servos, ordenando:
Dizei aos convidados: Eis que tenho o meu jantar preparado; os meus bois
e cevados já estão mortos, e tudo está pronto; vinde
às bodas. Eles, porém, não fazendo caso, foram, um
para o seu campo, outro para o seu negócio; e os outros, apoderando-se
dos servos, os ultrajaram e mataram. Mas o rei encolerizou-se; e enviando
os seus exércitos, destruiu aqueles homicidas, e incendiou a sua
cidade. Então disse aos seus servos: As bodas, na verdade, estão
preparadas, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, pelas
encruzilhadas dos caminhos, e a quantos encontrardes, convidai-os para
as bodas. E saíram aqueles servos pelos caminhos, e ajuntaram todos
quantos encontraram, tanto maus como bons; e encheu-se de convivas a sala
nupcial“.
Abelardo está em casa com sua mãe (voz em off). Esta trava
com o filho uma discussão sobre o fato de Abelardo poder trazer
os amigos para a festa de Natal. A População de rua posicionada
perto do público.
Abelardo – Hoje é Natal, mãe!
Mãe (voz em off) – E daí, Abelardo?
Abelardo – Lembra que a Senhora disse que eu poderia convidar os
meus amigos do colégio que não tem onde passar o Natal?
Mãe – Lembro, mas o seu pai bebeu de novo e está terrível.
Ele não vai gostar nem um pouco de ver um monte de garoto aqui
dentro! Ainda mais no natal!
Abelardo – Ah, mãe. Você sempre dá um jeito
de colocar o meu pai para dormir, quando ele está agressivo, com
aquele chá misterioso. Será que a senhora não podia
fazer o mesmo hoje, já que eu chamei a rapaziada lá do colégio
para passar o Natal comigo.
Mãe –Você observa tudo, hein, Abelardo?!
Toda a ‘população da rua’, em uma só
voz:
População da Rua – Observe, mas não procure
entender!
Abelardo – Tudo bem, mãe! Não precisa dar o chazinho
dorminhoco! Mas deixa eu trazer os moleques! Os cara são maneiro!
Profeta – Hoje, tudo para essa geração é maneiro!
Tudo! Se ao menos soubessem o que significa essa expressão, não
diriam que tudo é maneiro!
Mãe – Cambada de baderneiro! Já falei que não!
Esse pessoal que tu anda, meu filho, não vai ser nada na vida!
Gêmeo Dita – Meu irmãozinho! Tô sentindo que
o próximo ano vai ser o nosso ano!
Gêmeo Lento – Também estou sentindo cheiro de sucesso
no ar! Vamos aproveitar o máximo a rua, pois...
Gêmeo Dita e Lento – O sucesso nos prepara lugar!
Abelardo – Mas pelo menos os caras são amigos um dos outros!
E o mais importante: eles são meus amigos.
Guinga(mendigo) – Não sei o que tu fica me olhando tanto,
Valério!
Valério(pivete) – Pô meu irmão! E tem outra
coisa para olhar que não seja para você aqui nessa rua deserta?
Mãe – Bota uma coisa na sua cabeça, meu filho! Nesse
mundo, não existe amigo não!
Daila – (a Alonso) Fica assim não meu lindinho! Existem várias
formas de amor!
Dr. Alonso – Ué?! Será que existem várias formas
de amor?
Daila – Será?
Profeta – (com tom engajado) Será?
Guinga (mendigo) – Será?
Gêmeos Dita Lento – (cantarolando, arrastando todos os outros
personagens para fora de cena com sua cantoria) Será? Será?
Será? Será?
Abelardo – Será que não, mãe! Será que
eles não são meus amigos? Você nem viu ainda os garotos
para falar assim! Você precisa conhecer para falar mau!
Mãe – Ta legal, garoto! Vai chamar esses moleques! Não
precisa ficar me dando lição de moral não! Só
me faltava essa, ficar recebendo lição de moral de um garoto
de quinze anos! Vai, vai, que estou ocupada e, pelo jeito, vou ficar mais
ocupada ainda...
CENA 2
Abelardo sai da casa.
Abelardo – Eu e meus amigos vamos dar uma lição de
amizade no meu pai e na minha mãe! Depois desse Natal, eles vão
até mesmo passar a se relacionarem melhor.
Maíra, de mochila, encontra com seu amigo Abelardo.
Abelardo – Fala Maíra!
Maíra – E aí, Abelardo! Tranqüilo?!
Abelardo – Beleza! Tá sabendo que minha mãe deixou
a galera passar o Natal lá em casa!
Maíra – Pôxa... Você demorou muito para falar
se sua mãe ia deixar ou não!
Abelardo – Claro que falei que ela iria deixar, Maíra! Só
disse que o tempo todo eu tenho que ficar lembrando a ela da promessa
feita por ela! É que um dia ela diz que deixa, outro ela diz que
não deixa. Mas que no final ela iria deixar!
Maíra – Abelardo, muita incerteza! Muita incerteza! Aí,
a galera decidiu viajar! Todo mundo que não tem casa tranqüila
para passar o Natal vai!
Abelardo – Para minha casa?
Maíra – Não, Abelardo! Vai viajar! Viajar para outro
lugar!
Abelardo – Pôxa, Maíra! Vocês me deram a palavra
de vocês.
Maíra – Só lamento, Abelardo! Você demorou muito
para deixar o pessoal tranqüilo sobre a decisão da sua mãe!
Abelardo – Que vacilo!
Maíra – É a vida.
Maíra sai de cena. Abelardo fica em cena, chateado e refletindo.
Ao fundo escuta um cantarolar diferente. Ele se sente atraído por
esse canto e vai atrás dos cantores. São os gêmeos
Dita e Lento. Abelardo se aproxima dos dois.
Dita – Márcio, tu não tá cantando direito!
Lento – Já falei para você ter paciência comigo!
Dita – Paciência?! Márcio, o tempo urge! Eu nunca vi
um início de carreira tão lento como o nosso!
Lento – Já falei para você que o sucesso é questão
de tempo. Apressar um início de carreira pode ser fatal para a
própria!
Dita – Nada disso, Marcos. Melhora logo essa sua performance, harmonia,
afinação, impostação de voz, noção
de ritmo...
Lento – Caramba, Marcos, então eu tenho que melhorar tudo,
né?
Dita e Lento reparam a chegada de Abelardo.
Dita – Olha! Chegou o nosso público. Prepara a canção!
Lento – Calma, Marcos! Vamos esperar o menino solicitar a nossa
performance!
Dita – Que calma nada! Nos palcos das ruas, qualquer um que passa
é público! Vai lá, um, dois, três...
Dita e Lento começam a cantarolar a música de apresentação.
Ao terminarem de cantar, o menino fica satisfeito com o que ouviu, embora
não tenha sido uma apresentação, aos olhos dos homens,
de fato boa.
Abelardo – Que maneiro! Muito boa apresentação de
vocês.
Dita – Nós somos os gêmeos Dita e Lento!
Abelardo – De Talento?!
Dita – É isso aí! Eu sou o Dita, e ele é o
Lento!
Lento – Ele que resolveu me chamar de Lento! Estamos aí,
morando na rua por causa dele, que acredita nessa ilusão de virar
artista, e que o começo de carreira se dá nas ruas, e eu
é que sou o Lento!
Dita – Ai, ai! Como você viu, garoto, além de Lento,
ele é o resmunguento!
Lento – E você sabe porque ele se chama Dita? Porque ele é
um Ditador!
Dita –Não dê atenção para a reclamação
dele, meu público! Você sabia que nós somos versáteis!
Fazemos peça teatral, malabarismo, pintamos e bordamos.
Abelardo – Que máximo! Então façam outras coisas
aí para eu ver!
Dita – Na verdade, estamos direcionando agora o nosso talento apenas
para a área musical! O próximo ano será o ano musical
dos irmãos...
Dita e Lento - ...Dita e Lento.
Lento – Bom, se você quiser saber a verdade verdadeira, é
a seguinte: em 2002, tentamos ser atores e não conseguimos. Em
2003, tentamos ser malabaristas e não conseguimos. Em 2004, mesmo
fracasso, só que na área da pintura. E em 2005, foi a vez
do fiasco da bordadura.
Dita – Não estrague o ponto de vista positivo e otimista
do menino, Lento.
Lento – Ah, Marcos...
Dita – Não me chame pelo o meu nome verdadeiro na frente
do meu público! Meu nome artístico é Dita! Dita!
Bom, meu público, você quer ouvir mais uma música?
Abelardo – Cara, quero sim! Mas...Olha só! O que vocês
acham de fazer, digamos, o primeiro show de vocês lá em casa?
Hoje é noite da Natal e um dueto tão engraçado como
o de vocês ia animar a noite da minha família que, como o
lento, também é resmunguenta!
Lento – Está bem, quanto você vai pagar a gente?
Dita – Lento! Você é lento para tantas outras coisas,
e para isso você quer ser rápido?! Lembre-se do que nós
combinamos!
Lento – Acho que eu estou lento para lembrar das coisas! Dá
para você refrescar minha memória! Falta de alimentação
dá nisso!
Dita – (suspira) Nós combinamos que não iríamos
cobrar nada do nosso primeiro contratante. E esse menino é o primeiro
e, olhando bem para ele, vemos que ele não tem condições
de pagar um preço tão alto, compatível com o nosso
talento!
Lento – É mesmo. Eu tinha me esquecido disso.
Abelardo – E vocês também nem tem a carteira da Ordem
de Músicos para ficarem fazendo shows por aí e ganhando
por isso.
Dita – É mesmo! Mas vamos tirar, né Lento!
Lento – Sem pressa!
Pausa. Um gêmeo olha para o outro gêmeo e ambos comemoram.
Dita e Lento – O primeiro show dos gêmeos Dita e Lento!
Dita, Lento e Abelardo vão caminhando cantarolando a música
de “trabalho” dos gêmeos, quando se deparam com uma
cena de violência. Valério ameaçando Guinga com uma
arma na cabeça dele.
CENA 3
Valério – Eu sei que você tem dinheiro! Eu sei!
Guinga – Eu não tenho nada!
Abelardo – Ai meu Deus, o que é isso?!
Lento – O Valério está ameaçando o Guinga com
uma arma!
Dita – Mas eles sempre se deram bem morando debaixo do viaduto.
Abelardo – Eles se conhecem?
Dita e Lento fazem sinal de positivo.
Valério – Eu sei que tu tem dinheiro, Guinga! Me dá
logo essa grana!
Guinga – Mas tu tá cansado de saber que eu sou mendigo!
Valério – O mendigo que mais pediu esmola por aqui! Cadê
essa grana rapá?!
Abelardo – Não entendo! O cara é mendigo e está
sendo assaltado?!
Dita – Ih, menino! Diz a lenda que o Guinga tem muita grana! Eu
não acredito.
Lento – Muita gente diz isso! Já até viram ele entrar
em carro.
Abelardo – Então esse que tá assaltando o mendigo
é outro infeliz que acredita em lenda.
Dita – É, mas se a lenda tiver certa, ele vai ser o único
que vai se dar bem, justamente por acreditar!
Valério – Vou contar até cinco, Guinga! Um, dois,
três, quatro...
Abelardo – Posso falar com você, moço?
Valério – Quem é você, moleque?
Guinga – Vai embora, menino. O Valério tá doidão!
Daqui a pouco passa o efeito da droga, ele volta ao normal.
Abelardo – Queria fazer uma pergunta para o senhor. Porque o senhor
acha que ele tem dinheiro?
Valério – Porque todo mundo fala! O que todo mundo fala eu
acredito.
Abelardo – Mas todo mundo já falava que ele tem dinheiro
há muito mais tempo. Porque você não deu um tiro há
mais tempo nele?
Valério – Não sei, menino! E vai embora logo, antes
que eu também te dê um tiro.
Abelardo – Mas eu sei o porquê! Tchau! Vamos embora, Dita
e Lento!
Valério – Não... Não...
Valério solta Guinga e fica perto de Abelardo.
Valério – Não vai embora não! Me diz logo,
porque eu sofro de curiosidade aguda!
Abelardo – Só vou contar se você me der essa arma.
Valério – Que te dar a arma o quê? Como é que
vou obrigar o Guinga a me dar a grana sem a arma? Já viu o tamanho
dele?
Abelardo – Então não conto!
Valério – Tá bem, tá bem! Toma! Ai, ai! Tchau,
Língua de fogo! (dá um beijinho na arma)
Guinga – O Valério tá doidão mesmo!
Abelardo – Toma, Dita! Some com isso, pois o meu pai, apesar de
ser um bêbado, votou a favor do desarmamento.
Dita joga a arma fora.
Valério – Agora fala, rapá! Fala o que você
sabe.
Abelardo – Simples! Você não precisa mais do Guinga
do teu lado! Você deve ter arrumado outra pessoa para dividir o
viaduto. O Guinga para você só tinha valor quando ele lhe
interessava. Na verdade você não quer grana do Guinga, porque,
no fundo no fundo, você sabe que o cara não tem dinheiro.
Lento – É mesmo, Valério! E você sabe que quem
espalhou essa lenda do Guinga ser rico? Foi o Profeta Jarbas! Ele se diz
profeta mas é um garganta! Só parou de falar mentira quando
deram um livro preto para ele.
Valério – Tá bem! Tá bem! Eu confesso que ia
passar o Guinga porque tava querendo trazer um pessoal pra cá!
Mas eu não ia conseguir atirar não! Eu gosto dessa cara
pra caraca. (abraça Guinga, chorando) Só que eu queria mesmo
uma grana, em noite de Natal, essa rua fica vazia e não dá
para assaltar ninguém!
Lento – O Valério, você não sabe que em Natal
é a única época do ano que as pessoas ficam boazinhas!
Dita – É mesmo! Por exemplo, nós estamos indo para
a casa desse menino fazer um show. (tom) Abelardo é o seu nome,
né? (tom) Vem com a gente! O nosso público tem que ser maior.
Você deixa, Abelardo?
Abelardo – Claro, eu ia levar dez caras para passar o Natal lá!
Os caras não vai mais! Logo, sobrou vaga para quem quiser ir! Vambora!
Vem Guinga também!
Guinga – Pô, vou sim!
Valério – Olha só! Vamos apresentar esse menino pro
Profeta Jarbas! O moleque é inteligente! O Profeta gosta de cara
inteligente como ele!
Guinga – Só que o Profeta usa a inteligência dele para
ficar espalhando boato e lenda! O cara é maior fanfarrão!
Valério – Ah, vamos lá! Quem sabe o Profeta deixa
de ser esse “um sete um” que ele é quando conhecer
o guri!
Dita – Só que ele não é mais mentiroso não!
Depois que deram para ele o livro preto, o Jarbas deixou de falar mentira.
Valério – É isso! Ô moleque, tu num falou que
ainda tem vaga para passar o Natal lá na sua casa? De repente,
o profeta vai nesse bonde!
Dita – É isso aí! Vamos lá! Vai ser um show
e tanto, hein, Lento!
Lento – Só se a gente chegar a tempo!
Todos vão no caminho da casa do Abelardo, mas antes vão
passar no ponto onde fica Profeta Jarbas. No caminho, depara-se com duas
pessoas. Uma mulher consola um homem.
CENA 4
Guinga – Olha só! Estou vendo que eu não era o único
triste no Natal!
Valério – E você acha que eu não estava triste
em ameaçar você?! Me dá um abraço de novo,
Guinga!
Os dois se abraçam rapidamente sendo interrompidos por Lento.
Lento – Tá bom, gente! Chega dessa melação.
Abelardo – Será que os dois são casados?
Guinga e Valério – Ih, qual é?! (apartando-se um do
outro)
Abelardo – Não, eu estou falando deles dois ali. (aponta
para Daila e Dr. Alonso)
Dita – É o que parece. Mas ele, tão bem arrumado,
de terno, e ela com uma roupa de prostituta.
Lento – Ô Dita! Não tá vendo que é a
Daila, a prostituta mais antiga aqui do bairro? Depois eu que sou o Lento...
Dita – É mesmo!
Abelardo – Então eles não são casados?
Lento – Só se a Daila mudou de vida de ontem para hoje, pois
até ontem, ela estava vivendo a mesma difícil vida de sempre,
que muitos dizem que é vida fácil.
Abelardo – Eu vou lá falar com ela.
Valério – Vê se convida eles para o Show dos Gêmeos
Dita e Lento!
Dita – Ah, Valério! Pivete e Mendigo no meu show tudo bem.
Agora, prostituta...
Abelardo – Que olhar preconceituoso é esse, Dita?Esqueceu
que eu sou criança? Comigo não tem essas coisas não.
Se for para chamar ela, eu vou chamar!
Abelardo se aproxima dos dois.
Abelardo – Com licença.
Daila – O que foi, garoto? Não vê que o coroa aqui
quase tentou o suicídio.
Abelardo – Ele quis se matar?
Daila – Só não se matou porque eu cheguei na hora,
peguei a arma dele e joguei a arma longe. Ela caiu perto do viaduto.
Abelardo – (olha para Valério) Ah sei...
Valério – Eu pensei que ela tinha caído do céu
e que Deus votou contra o desarmamento.
Abelardo – O que aconteceu com ele?
Daila – Olha, eu não sei se ele vai falar não.
Dr Alonso – Estou arrasado!
Abelardo – O quê?
Dr. Alonso – Estou falido! Arruinado!
Daila – Garoto, ele era um empresário bem sucedido, e agora
está na miséria, enrolado com um monte de credores! Você
sabe o que é isso?
Abelardo – Claro que sei! Essa raça é a que mais bate
na minha porta. É, moça...
Daila – Meu nome de guerra é Daila.
Abelardo – É...Dona Daila. Eu posso falar um minuto com ele?
Daila – Fala, menino. Ai, essas crianças de hoje querem se
meter em tudo! Parece até que não são mais crianças.
Abelardo – (ao Dr. Alonso) Qual o nome do senhor?
Dr. Alonso – Meu nome é Dr. Alonso. Filho, meu erro foi confiar
no homem. Já ouvi alguém falar que ‘maldito o homem
que confia no homem’. Pois é! Estou aqui, maldito e mal pago.
Nunca pensei que o meu sócio ia passar a perna em mim.
Abelardo – E se eu falasse que o senhor está em melhor situação
do que outros empresários falidos, o senhor acreditaria em mim?
Dr. Alonso – Como assim, filho?
Abelardo – Estou vendo que o senhor não se entregou à
bebida...
Dr. Alonso – Mas estou humilhado da mesma forma. Quem tem que sustentar
a minha casa, que sempre foi cheia de luxo, agora é a minha mulher,
com um emprego para lá de humilde.
Abelardo – Dr. Alonso, isso é bom. Vai ajudar o senhor a
olhar para sua esposa com mais carinho! E agora é oportunidade
de o senhor mostrar que é mais do que pai, mais também amigo
das suas filhas, pois o senhor vai ter uma coisa que os empresários
dizem que nunca têm: tempo! Por incrível que pareça,
meu pai e minha mãe estão na mesma situação.
Só que o caso do meu pai é diferente. Ele não tinha
um emprego tão bom quanto o senhor, mas o que arruinou ele não
foi a falência, foi o álcool. O senhor ainda pode se levantar
de novo! Ele também, mas acho que vai demorar mais do que o senhor!
Dr. Alonso – Ninguém sabe, meu filho (pausa) (levantando-se)
É...mas vejo que o conselho de tanto uma mulher (levanta Daila)...e
de uma criança (levanta Abelardo) serviram para me animar e dar
valor ao que eu ainda tenho!
Guinga – Vamos pro show, doutor!
Dr. Alonso – Vai ter um show por aqui?
Valério – Vai! Os gêmeos vão cantar lá
na casa desse moleque! Vai ser legal! Vamos com agente!
Dr. Alonso – Claro! Só que eu queria levar uma pessoa!
Abelardo – Fique à vontade, Dr. Alonso!
Dr. Alonso – Levar uma nova amiga. Está vendo como não
é preciso usar os recursos da prostituição para satisfazer
um homem? Vamos à festa de Natal na casa do menino, Daila?
Daila – (rejeitando o convite, contudo, sendo gentil) Vai o senhor,
Doutor. Minha vida é essa! E ela não é um show! É
realidade.
Abelardo – Que isso?! Vamos com a gente!
Daila – Já falei que eu não vou, garoto. Me deixa
em paz.
Abelardo – Vamos! Vamos!
Daila – Não!
Daila foge de Abelardo, que corre atrás dela e machuca o tornozelo.
Abelardo – Aiiiii!
Dita – Que foi Abelardo?
Abelardo – Eu acho que torci o tornozelo.
Guinga – Deixa que eu carrego ele nos ombros!
Guinga põe Abelardo nos ombros.
Guinga – Agora, vou sempre servir o Abelardo, já que ele
salvou a minha vida.
Lento – Ô Guinga! Tu também gosta de uma fábula,
hein?!
Dita – Chega de papo e vamos para a casa do Abelardo! Só
falta essa! Eu e o Lento chegarmos atrasados no nosso primeiro show!
Enquanto estão indo, cantarolando, encontram o Profeta Jarbas na
esquina, profetizando em voz alta.
CENA 5
Profeta Jarbas – Meus irmãos, preparem-se para saber o que
irá acontecer nos próximos dias!
Guinga – Olha gente! É o profeta Jarbas!
Dita – E hoje ele está empolgado.
Valério – Será que ele tá doidão?!
Lento – Que nada! O profeta Jarbas nunca precisou de drogas não,
Valério!
Jarbas – Silêncio! (...) O fim não será em dilúvio,
como muitos pensam, pelo menos de acordo com esse livro preto que me deram
e que eu li até a metade!
Guinga – Ih, deram um livro profético para o Jarbas.
Dita – Agora ele vai pensar que é profeta mesmo!
Jarbas – Shhhhh! (...) Mas haverá um menino! Um menino salvador!
Um menino que nos levará para um lugar bom!
Guinga – (com Abelardo nos ombros) Ih, Abelardo! Acho que ele está
falando de você.
Todos riem, exceto Jarbas.
Jarbas – Cala boca, seu jumento. (...) Jumento? (Jarbas folheia
o “livro preto” – Bíblia) Meu Deus! É
ele! É ele o menino que esse livro preto fala! Tá aqui!
Tá aqui, olha! “Vê! O teu rei virá montado num
jumento, num jumentinho, filho de jumenta”! Ta aqui no profeta Zacarias
desse livro preto.
Guinga – Vai ficar xingando a minha mãe, ô Jarbas!
Jarbas – Acabaram as minhas profecias! O menino chegou!
Dita – Ô Jarbas? Não é melhor você ler
esse livro preto até o fim, para você ver quem é o
menino descrito nesse livro.
Jarbas – Não precisa! Todos sabem que o Guinga é um
jumento...
Guinga – Eu vou bater nesse cara!
(todo seguram Guinga)
Guinga – Primeiro, o Jarbas espalhou o boato que eu era rico! Agora
fala que eu sou um jumento.
Jarbas – Shhhh! E agora, meus irmãos, vamos para a redenção,
seguindo esse menino que...que...(a Abelardo) Qual é o seu nome
mesmo?
Abelardo – Abelardo.
Jarbas – Que se chama Abelardo! Vamos cantar juntos! (na melodia
de Aleluia de Haendel)
Todos caminham em direção à casa de Abelardo, agora
cantando o seu nome na melodia da musica “Aleluia” de Haendel.
CENA 6
Abelardo, mancando, desce do ombro de Guinga.
Abelardo – Pronto, gente! Chegamos! Agora vocês esperem um
pouco, que eu vou falar com a minha mãe lá dentro, para
vocês entrarem para o melhor show desse bairro.
Todos comemoram, cada um ao seu jeito. De lá de dentro, ouve-se
o diálogo de Abelardo com sua mãe.
Abelardo – Mãe, já trouxe o pessoal!
Mãe – Que pessoal, Abelardo?
Abelardo – Os meus amigos novos que eu trouxe para passar o Natal
com a gente, já que os meus amigos do colégio preferiram
viajar.
Mãe – E quem são esses amigos novos?
Abelardo – Umas pessoas super legais que eu conheci na rua.
Mãe – Na rua?! Você trouxe gente de rua para passar
o Natal com a gente?
Abelardo – O que tem de mais nisso? Eles são artistas, bandidos
arrependidos, pobres e até mesmo ricos! Sem contar com um profeta
que disse que eu sou um menino escolhido!
Mãe – Como assim escolhido.
Abelardo – Ah, ele disse que eu sou um menino que vai salvar uns
homens e que vim montado num jumento...
Mãe – Ô seu jumento! Esse menino aí é
Jesus!
Abelardo – Jesus?
Mãe – É, esse :Jesus que agente comemora o nascimento
dele no Natal! Tu é um troxa mesmo, héin, Abelardo! Não
notou que eles te chamaram de Jesus, ou menino escolhido, para se aproveitar
e comer a nossa ceia de Natal!
Abelardo – Isso não verdade, mãe, eles...
Mãe – (interrompe-no) Chega Abelardo! Não quero ninguém
aqui! Ninguém!
Abelardo – Mas mãe...
Mãe – Já falei!
Todos lá fora, ouviram o diálogo e ficam tristes.
Abelardo – Gente, tenho uma péssima notícia para vocês!
Dita – Ouvimos tudo daqui de fora, Abelardo.
Lento – Mas queremos agradecer pela oportunidade.
Jarbas – É, tô vendo que vai demorar para eu encontrar
esse menino escolhido para me levar para o bem bom!
Jarbas é o primeiro a ir embora.
Guinga – Deixa o Jarbas para lá, Abelardo.
Valério – É...esse é pior do que eu. Fica doidão
sem drogas. Mas muito obrigado por me fazer pensar, Abelardo. Nunca mais
boto uma droga na minha boca!
Abelardo – Tive uma idéia. Nós podíamos fazer
uma festa de Natal na rua! Eu pegava umas comidas escondidas da minha
mãe e a gente montava uma mesa perto da esquina em que a Daila
está, e aí a gente aproveita para chamar ela...
Todos vão se retirando, meneando a cabeça. Dita é
o único que fica.
Abelardo – Esperem! Esperem! Esperem, por favor!(chora)
Dita – Não fica assim não, Abelardo! Apesar de nós
estarmos tristes, a gente sabe que você é um cara legal.
Foi você que nos convidou para a festa, e não sua mãe!
Abelardo – (chorando) Ô Dita, será que eu vou ter uma
casa para receber quem eu quiser?
Dita – (se abaixando próximo a Abelardo) Você vai ter
a sua própria casa para receber quem você quiser! Só
que, embora sua, nem você, nem sua mãe, nem ninguém
daqui da Terra é o verdadeiro dono. O dono é aquele que
é o dono de tudo! Pede a Ele! (pisca o olho) Tchau, Abelardo! E
Feliz Natal!
Abelardo, ainda chorando, olha para a casa, bem de frente. Vem uma tempestade,
com vários trovões e raios. A chuva cai sobre Abelardo e
sobre sua casa. Dois raios atingem as duas árvores ao lado da casa
dele. Ao caírem sobre a casa, as árvores destroem-na. Abelardo
fica estático e apático, sem poder fazer nada. Somente olha
o desastre. Os bombeiros vêm. É uma mulher e um homem. Eles
sobem nos destroços. Verificam que todos morreram nela, exceto
um neném. Voz feminina em off: “Acidente na casa da Rua Torres.
Duas árvores desabam sobre a casa devido a força de um raio
que atingiu as árvores. O casal que ali residia morreu na hora.
Os únicos sobreviventes foram duas crianças”. Durante
essa narração (notícia de rádio), a bombeira
pega, no meio dos escombros, o neném sobrevivente. Ela se posiciona
como Maria embalando o menino Jesus. O bombeiro se posiciona como José,
observando feliz a cena. No “data show”, a imagem de um presépio.
Um pouco depois da narração, o início da poesia.
Voz em off - Nos destroços deixados pelo pecado na humanidade
Um menino nos nasceu...
A figura de presépio no “data show” é retirada.
Os bombeiros entregam o neném para Abelardo segurar, que ainda
chora. Há uma medalha no pescoço do neném. Abelardo
olha a medalha. Está escrito “você está convidado
para a minha festa” (essa frase será visível no “data
show”, abaixo de uma figura que amplia o pescoço do neném
trazendo a medalha). Abelardo, mesmo que ainda chorando, olha para o céu,
sendo abraçado pelos bombeiros, que depois prosseguem seu trabalho
nos destroços do acidente. Durante essa cena, a poesia que ficou
interrompida por um tempo. Ela prossegue sendo recitada.
Voz em off - ...as pedras já estão clamando
Os fenômenos da natureza já estão anunciando os próximos
acontecimentos
E por incrível que pareça, pessoas que não são
cristãs falam, entusiasticamente, do nome de Jesus.
Eu sei que é duro, duro para o povo escolhido
Ver hipócritas, pagãos e outros proclamando, mesmo que de
maneira deturpada, o nome do Senhor.
Privilégio que é do povo de Deus.
Entretanto, nós mesmos estamos dispensando e rejeitando esse privilégio.
Mas ainda há algo
Que não é pedra clamando
Fenômeno da natureza
Ou outro sinal qualquer que nos alerte.
Novos nascimentos
Estes, além de nos alertarem, nos lembram
Que ainda temos uma nova chance
O Senhor Jesus também nasceu
Que estejamos nascendo
Não apenas uma vez, mas duas vezes.
E na segunda vez, sem precisar voltar ao ventre materno
Mas em espírito e em verdade, sentindo a única forma de
amor existente
O amor que vem do Senhor, que é puro como o olhar de uma criança.
Só assim, entenderemos o verdadeiro sentido do Natal.
Fim
Flog
do autor, com outros textos.
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