“Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para
que possais resistir no dia mau, e, depois de terdes vencido tudo, permanecer
inabaláveis.
Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade, e vestindo-vos com a
couraça da justiça.
Calçai os pés com a preparação do evangelho
da paz, embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis
apagar todos os dardos inflamados do maligno.
Tomai também o capacete da salvação e a Espada do
Espírito, que é a palavra de Deus;”
Estamos num campo de batalha, onde Satanás lança mão
de seu “armamento pesado”. E nós, se não estivermos
devidamente “trajados” para esta batalha, certamente seremos
derrotados.
Ato Único
Cenário: Quarto de Wanda. Os objetos do quarto são todos
invisíveis, com exceção de uma cama localizada um
pouco afastada do centro do palco. E é do lado oposto do palco
que o personagem Demônio montará seu “Quartel General”.
Cena I
(A peça inicia-se com a personagem Wanda sentada na cama, na extremidade
voltada para a platéia. A moça está vestida de pijama,
descalça, embora seus chinelos estejam abandonados numa das laterais
da cama. Ela se encontra fazendo as unhas).
(Entra em cena o personagem Demônio, trazendo uma caixa de papelão,
na qual traz suas “ferramentas”. Numa determinada distância
de Wanda, Demônio descansa a caixa no chão. Ele seca o falso
suor do rosto e se apressa em tirar suas “ferramentas”, que
são: espadas, uma caixa das do tamanho das de sapato, uma caixa
estreita e comprida (onde supostamente encontram-se os dardos), etc.)
(Wanda se levanta, sem apanhar os chinelos. Ela avança até
a penteadeira invisível, penteia os cabelos em frente a um espelho,
também invisível. A suposta penteadeira encontra-se entre
a personagem e a platéia).
(O personagem Demônio se aproxima da moça. Ele faz mímica
de procurar algo nas gavetas da penteadeira, como se estivesse à
procura de algum objeto suspeito que incrimine a jovem, ação
esta que se equipara à que ele pratica em relação
às nossas vidas, procurando por um pecado não confessado.
O Demônio vasculha, abre várias gavetas ao mesmo tempo, joga
coisas invisíveis para o alto e fecha gavetas com o pé.
Ele demonstra impaciência).
(Wanda em nenhum momento percebe a presença do outro personagem.
Ela, feliz, se perfuma e se maquila assobiando uma canção).
Demônio: (frustrado por não ter encontrado nada nas gavetas)
Mas que droga! Não achei nada. (à Wanda, embora ela não
consiga perceber sua presença) Mas isso não vai ficar assim!
(sardônico) De santa você não tem nada, mocinha! Eu
a conheço! (aproxima-se um pouco mais da outra personagem). (como
que tentando hipnotizá-la ao som de sua voz) Você está
com fome!
Wanda: (interrompe subitamente o assobio). (olha desconfiada para o estômago)
Estranho! (prossegue o assobio, agora desafinado).
Demônio: (sussurra) Wanda, ouça-me! (quase que soletrando
as palavras) Você está com fome! Você está morrendo
de fome! Uma fome muito grande! Fome! Muita fome! Logo você vai
dormir... A altas horas, vai acordar e ficar com insônia... (Wanda
interrompe o assobio, ficando por alguns segundos pensativa). Tudo porque
você não quis ouvir seu estômago.
(Wanda fica com os olhos inquietos, como se estivesse concebendo a voz
do Demônio como sendo a voz de seu inconsciente)
Demônio: Sem falar que amanhã você vai fazer... (Faz
cara de nojo) Bah! Vai fazer jejum, e não vai poder comer nada.
Por isso, é bom você ouvir seu estômago.
Wanda: (olhando para estômago) Como posso estar com fome? Acabei
de jantar! (tenta se compenetrar) Não estou com fome! Não
estou com fome! E não estou com fome!
Demônio: Está! (tentando novamente hipnotizá-la) Está
com muita fome! Bolo de chocolate... X-salada... (Wanda passa a língua
nos lábios, demonstrando estar com água na boca) salgadinho...
maçã vermelhinha... Huuummm!
Wanda: (desconfiada) Pode ser que eu esteja com fome! Estranho!
Demônio: (em tom confidencial) Eu vi você pegar escondida
aquela maçã. E também ouvi sua mãe proibir
qualquer um de pegar uma das maçãs. (noutro tom) Ela estava
com planos de fazer uma torta. Mas uma só não faz diferença
mesmo!
(Wanda ameaça ir até a cama, mas acaba voltando à
penteadeira para fechar um frasco invisível de perfume que supostamente
havia ficado aberto).
(Demônio fica em sua retaguarda, como se fosse sua sombra. Porém,
antes de chegarem à cama, Demônio quase atropela a moça,
passando em sua frente, na intenção de ser o primeiro de
chegar ao local).
Demônio: Está aí embaixo do travesseiro! Eu vi você
colocar aí!
(Wanda ergue o travesseiro, encontrando a maçã e, também,
sua Bíblia).
Demônio: (Impaciente) Vamos logo com isso! Pegue a maçã!
Coma a maçã! Devore a maçã! Libere o instinto
animal que existe em você! (Rindo) Hi! Hi! Hi!
Wanda: (Hesitando em morder a fruta) Como ou não como?
Demônio: Claro que come! Vamos logo com isso, garota! Eu não
tenho todo o tempo do mundo! (olha para o relógio) Daqui a pouco
eu tenho um adultério para celebrar! Tenho pressa!
(Wanda observa sua Bíblia. Apanha-a em sua mão, ficando
a maçã na mão esquerda e a Bíblia na mão
esquerda).
Wanda: (ambígua) Oba, comida!
Demônio: (apavorado) Essa não! Lá vem ela com artilharia
pesada! Odeio Jeremias 15:16! Odeio a Bíblia!
(Wanda folheia a Bíblia sem muito interesse).
(Demônio debanda para sua barricada. Ele espia por cima da caixa).
Wanda: (boceja) Que sono que me deu! (Esfregando os olhos) Acho que é
de ler estas letras miúdas.
Demônio: (interessado) Hum!
Wanda: (larga a Bíblia na cama, ficando só com a maçã
nas mãos) Parece apetitosa!
Demônio: (à platéia) Adoro esse tipo de crente. Tem
a faca e o queijo na mão, tendo chance de me derrotar, estando
com a Espada do Espírito nas mãos, mas lançam-na
para longe, desperdiçando a oportunidade. (imitando lutador de
boxe) Prefere lutar com os próprios punhos. (rindo) Idiota! Com
a força da carne ninguém pode me derrotar. (pisca para a
platéia) Acompanhem-me nesta empreitada. Vejam como é fácil
derrotar um crente sem a armadura de Deus!
Wanda: (indecisa) Como ou não como?
Demônio: Estão vendo aquela maçã? (demonstrando
ser uma pergunta retórica) É claro que sim! Que eu saiba,
na Bíblia não há nenhuma proibição
em comer maçã! Conseqüentemente comer maçã
não é pecado. Mas o que está em jogo aqui é
o “obedecer” ou o “não obedecer” –
é o “honra os teus pais”. Eu aposto todas as minhas
fichas que desta vez ela cai.
(Ao terminar a fala, Demônio avança até a outra personagem).
Wanda: (ainda admirando a fruta) Que fruta mais bonita! Não é
à toa que Eva não resistiu!
Demônio: (zombeteiro) (ao público) Ela ainda pensa que foi
maçã. Wanda sempre foi mesmo uma guerreira sem munição.
Não conhece nem o básico da Bíblia. Está precisando
urgentemente freqüentar a Escola Dominical. Coisa que eu vou continuar
fazendo de tudo para impedir. Afinal, eu já estou tendo um pouco
de êxito.
Wanda: (à parte) O que é que tem se eu comer? (Divagando)
Depois eu posso dizer que foi o Claudinho. Ninguém nunca vai descobrir
mesmo! (com receio de estar sendo observada, dá uma rápida
olhada para entrada. Certificada de que a “barra está limpa”,
tira uma mordida enorme da fruta) Hum! (de boca cheia) Uma delícia!
(Enquanto Wanda continua a saborear fruta, Demônio volta ao seu
“Q.G.” para apanhar uma espada). (Prepara a espada para dar
um golpe traiçoeiro em Wanda. Passa o dedo na língua e depois
no gume da espada, como que conferindo o fio).
Demônio: (pegando na pontinha da orelha) No ponto! (dá um
golpe na altura das costelas da outra personagem).
(Wanda, sentindo a fisgada, derruba a maçã. Ferida, cai
no chão).
Wanda: (gemendo) Ai! Que dor na coluna! (apanha o resto da fruta na mão)
Será que esta maçã está carregada de agrotóxico?
(Wanda sai de cena, na intenção de livrar-se da maçã.
Ela volta logo em seguida. Todos os seus passos são seguidos pelo
Demônio).
Wanda: (esfregando as mãos, como se estivesse limpando-as) Espero
que a mãe não veja a maçã no lixo. Senão
estou frita!
(Wanda se direciona à suposta penteadeira. Ela finge espremer uma
espinha ao espelho).
Demônio: (apalpando o bolso de Wanda) Veja! Você tem dois
bombons! E são todinhos seus (solta uma gargalhada reprimida).
(Wanda não percebe a tentativa de comunicação do
Demônio. Ela arruma seus cabelos, prendendo-os com grampos invisíveis).
(Wanda, sem querer, encosta num de seus bolsos volumosos, no qual estão
escondidos os bombons).
Wanda: (Percebendo o volume) Hein? O que temos aqui?
Demônio: É chocolate, sua boba!
Wanda: (tira o que está em seu bolso, percebendo que são
dois bombons) Ah! Chocolate! (com olhos maliciosos) Chocolate!
Demônio: Estou vendo que se interessou!
Wanda: (muda o semblante). (imitando a voz de sua mãe). (apanha
um bombom em cada uma das mãos). (entregando um bombom a um personagem
invisível) Um prá você, Wanda! E se contente com um
só! (com sua própria voz) (como que apanhando o chocolate)
Obrigado, mãezinha querida!
Demônio: (zombeteiro) Como é falsa!
Wanda: (imitando a voz da mãe). (entregando o outro bombom a um
personagem invisível) Outro prá você, Claudinho! (assumindo
a posição do personagem invisível) Mãe, acho
que não quero! Enjoei! (assumindo a posição de Wanda).
(voz sua própria voz). (agressiva) Eu quero!
Demônio: (aplaudindo) Bravo! É assim que se faz!
Wanda: (reflexiva) Mas isso não é justo! (chorosa) Este
bombom não me pertence!
Demônio: (nervoso) Ah, “qualé”?
Wanda: (coloca o bombom alheio sobre a cama). (personificando o bombom)
Fique bem quietinho aí!
Demônio: (com ar de deboche) Lá vem ela com aquela estória
de peso na consciência. (apontando-lhe o dedo indicador) Sei que
você é fraca. Muita fraca. Não vai conseguir resistir.
(Wanda dá as costas pára o bombom alheio, e o outro, enfia-o
inteiro na boca).
(Demônio vai até suas coisas para apanhar uma espada, na
qual está escrito “INJUSTIÇA”).
(Confere o fio da espada). (Aproxima-se de Wanda).
Wanda: (de boca cheia) Hum! Uma delícia! Não existe coisa
mais gostosa do que chocolate!
Demônio: Existe sim! (aponta para o outro chocolate) Está
bem ali. (pequena pausa) E se chama “chocolate alheio”. Esse
é (dando maior entonação) inúmeras vezes mais
gostoso!
(Wanda, como se ouvisse a voz do Demônio, encontra com os olhos
o bombom do irmão).
Wanda: (tapando os ouvidos) Não posso ver! (Percebendo o erro,
tapa rapidamente os olhos) O-opa! (tenta se distrair assobiando)
(Subitamente, corta o assobio. Levanta o nariz, num movimento exagerado,
como se estivesse sentindo o cheiro do chocolate).
(Demônio, todo sorridente, vai até o bombom. Num gesto de
comicidade, abana próximo ao bombom em direção a
Wanda, como se estivesse tentando conduzir o cheiro até as narinas
da outra personagem. Exagerado, ajoelha-se, sopra no bombom, visando as
narinas de Wanda. Tudo para que a moça se sinta tentada).
Wanda: (destapa os olhos) Hum! Que cheirinho!
Demônio: (num riso malicioso) Hi! Hi! Hi!
(Wanda vai até o bombom. Olha ao seu redor, tentando ver se não
está sendo observada).
(Demônio ergue a espada preparando o golpe).
Wanda: (agacha-se próximo à cama). (apóia os cotovelos
sobre o colchão). (olhos fitos no bombom). (suspira) Ai! Ai! Por
que será que o que é do outro tem sempre uma aparência
mais saborosa. (inspira o aroma) E que cheirinho!
Demônio: (feroz) Vamos logo com isso, garota! Devore! Coma com o
papel! (noutro tom) Depressa! Alguém pode entrar aqui a qualquer
momento. (esforça-se para não explodir em uma gargalhada).
(cochichando com o público) É isso que estou torcendo!
(Wanda apanha o chocolate. Confere se não está sendo observada).
(Lentamente ela desembrulha o bombom. Arrependida, fecha a embalagem novamente,
deixando-o sobre a cama).
Wanda: (arrependida) Não posso!
Demônio: (brabo) Mas que infantil! (noutro tom). (apontando o chocolate)
Veja só! Ele está todo derretido!
Wanda: (apanha o bombom). (como se estivesse ouvido a voz do outro personagem)
Está todo derretido! (divagando) O Claudinho está na puberdade.
O rosto cheio dele mais parece um abacaxi. E chocolate só aumentar
ainda mais as suas espinhas.
(Resoluta, Wanda tira uma mordida enorme do bombom. Expressa satisfação.
Lambe os dedos).
(Demônio, dando uma gargalhada, faz que afia a espada no próprio
braço. Olha em direção a platéia. Balança
as sobrancelhas. Dá um sorriso sarcástico. Prepara-se para
o golpe).
(Wanda ainda saboreia o chocolate).
(Demônio acerta o golpe na altura da barriga da outra personagem).
Wanda: (encurva-se). (colocando a mão sobre a região do
corpo supostamente lesada) (de boca cheia) Ai! Ai! Acho que a maçã
não me caiu bem! Ou seria o chocolate? (noutro tom) Mas tão
rápido!
(Wanda, ainda sob o efeito do golpe, avista a Bíblia. Encurvada,
avança até ela. A moça demonstra uma melhora gradativa,
culminando com sua chegada ao Livro Sagrado).
Wanda: (completamente sã). (Apanha a Bíblia) Eu sempre ouço
uma voz me chamando!
Demônio: (Chamando-a) Wanda! (Noutro tom) Viu! É a minha
voz! (Repetindo) Wanda!
(Wanda coloca a Bíblia no peito. Faz como se estivesse avistando
uma nação longínqua).
(Demônio, cômico, posiciona o olhar na mesma direção.
Faz gestos de não estar vendo nada).
Demônio: Boba! Não aja por emoções! (em tom
confidencial). (ao ouvido de Wanda) Esqueça! Isso só pode
ser coisa do diabo. (estourando numa gargalhada) Você nem leva jeito
pra isso!
Wanda: (abanado a orelha, como se estivesse espantando uma mosca) Não
pode ser a voz do diabo. (convicta) Eu sinto que é um chamado divino.
Eu sinto no meu coração. É um chamado divino!
Demônio: (misterioso) Eu já apago teu facho! Espere só
um pouquinho!
(Demônio avança até sua barricada. Apanha uma caixa,
das do tamanho das de sapatos. A caixa traz os seguintes dizeres: “Tachinhas
antievangelismo”).
Wanda: (sonhadora, caminha pelo palco, como se avistasse as terras longínquas)
África, Oriente Médio...
(Demônio espalha as suas tachinhas invisíveis por todo o
palco).
Demônio: (olhando para a platéia) Eheheheh!
Wanda: Congo, Zaire, Nova Guiné, Irã, Tur... (pisa numa
tachinha, grita escandalosamente) Ai! Ai! Ai... (mancando, volta à
sua cama). (senta-se). (desanimada) Muitos são chamados... (pequena
pausa) mas poucos são os escolhidos. (imitando a voz rouca de pessoas
idosas) Eu já estou velha demais! As costas... (endireita a coluna)
Ai! Doem... Os pés... (massageia-os) estão cansados demais.
(só agora solta a Bíblia). (animando-se) Irra! Eu quero
mais é sombra e água fresca!
Demônio: Eheheh! É assim que se fala! (beijando a caixa de
tachinhas) Eu amo vocês, queridinhas! (à Wanda) Espere só
mais um pouquinho! Eu já estou a destruindo quase que completamente!
(Demônio revira suas coisas, até encontrar uma caixa comprida
que traz os seguintes dizeres: “Dardos Inflamáveis.”
Demônio retira com todo o cuidado um dardo invisível. Risca
um fósforo invisível na própria calça, “ateando
fogo” no dardo.)
Wanda: (levantando-se) Vidinha boa! (Espreguiçando-se) Mas que
preguiça! (Boceja)
(Demônio lança o dardo para o ar, tendo em mira Wanda. O
personagem acompanha toda a trajetória do dardo, até ele
atingir o “alvo”).
(Wanda, atingida, cai na cama)
Demônio: (cantando vitória) Yes! Yes! Yes! Na mosca!
(Wanda levanta-se com dificuldade, com a mão sobre a parte do corpo,
supostamente, atingida).
(Demônio procura outro objeto em suas coisas. Encontra um porrete
no qual há um papel preso a ele que traz os seguintes dizeres:
“Anestesia para o pecado”. Demônio olha para a platéia.
Balança as sobrancelhas. Retira o papel apresentando a platéia,
para que todos possam ler os dizeres. Demônio coloca o dedo indicador
próximo aos lábios, pedindo cumplicidade e silêncio.
Ele esconde o porrete atrás das costas e avança até
Wanda).
(Wanda está sentada na cama, lendo o texto sagrado, sem muito interesse.
Ao aproximar-se, Demônio acerta-lhe uma cacetada na cabeça
da outra personagem. A moça demonstra estar zonza. Levando-se,
meio cambaleando, mas sem tirar os olhos da Bíblia).
Wanda: (incrédula) Besteira! A Bíblia já está
ultrapassada! E ainda... (pisando numa tachinha) Aaaiii!
Demônio: (à platéia). (num sorriso irônico)
Minhas tachinhas antievangelismo são mesmo eficientes, não
é mesmo!
(Wanda, ao pisar nas tachinhas, desequilibra-se, caindo de tal forma que
seu rosto se encaixe com a Bíblia. Ela levanta-se. Demonstra mais
interesse pelo Texto Sagrado).
Wanda: (lendo a Bíblia (Ef. 6:13)) “Portanto tomai toda armadura
de Deus para que possais resistir no dia mau...” (prosseguindo por
mais alguns segundos a leitura apenas com os olhos) “Armadura de
Deus”! (entusiasmada) Era disso que eu estava precisando. (marca
a Bíblia com o dedo, fechando logo em seguida. Fica a refletir).
Demônio: Pára com isso! Armadura de Deus não existe.
O apóstolo Paulo só estava brincando. Além do mais,
a Bíblia já está bastante velha, mesmo. Estes escritos
foram de grande valia, mas só para aquela época. (noutro
tom) Você está cansada!
(Wanda, como se tivesse ouvido a voz do personagem Demônio, demonstra
cansaço nos ombros, massageando-os com as próprias mãos).
Demônio: Vá dormir! Talvez amanhã você possa
entender melhor estas palavras. Agora, vá descansar! Você
merece! Foi um dia realmente cansativo. (Wanda demonstra mais sono, bocejando)
Amanhã nós prosseguimos! (Dando uma gargalhada reprimida)
Ihihihih!
Wanda: (esfrega os olhos para despertar). (resoluta) Não! Eu preciso
da armadura de Deus pra hoje!
Demônio: (num lamento infantil) Ichi!
Wanda: (humilde, eleva os olhos para o céu) Senhor...
Demônio: Oh! Não!
Wanda: ...não sei como iniciar esta oração. Como
tenho andado distante de ti...
Demônio: Boba! Deus não vai te escutar, mesmo!
Wanda: Por favor, Senhor, preciso de mais uma chance!
(Wanda fica um pouco em silêncio, como se ela assumisse a próxima
fala do outro personagem como sendo a voz de sua consciência).
Demônio: Você quer mais uma? Não acha que está
pedindo demais? E o bombom do Claudinho? A maçã, sua gulosa!
Você nem estava com fome e estava se empanturrando!
Wanda: (ajoelhando-se) Senhor, sei que errei! E agora minha consciência
fica me acusando!
Demônio: (irônico) Troquei de nome agora!
Wanda: Sei que tu pagaste o preço do perdão de meus pecados.
Lavaste minha alma de minhas transgressões, com teu sangue vertido
lá na cruz.
Demônio: A barra está começando a ficar pesada!
Wanda: Purifica meu coração. Reconheço que tenho
agido erroneamente. Dá-me forças para vencer o inimigo.
Demônio: Eeeepa!
Wanda: Quero munir-me da tua armadura.
(Entra em cena o personagem Anjo).
Demônio: (sem perceber a entrada do outro personagem) Lorota! (percebe)
Oh! Não!
Anjo: (autoritário) Cala-te!
(A partir deste momento toda a fala do personagem Demônio é
inaudível pela platéia. Ela só volta ao normal no
final da peça, quando ele faz o desafio de espadas).
(Demônio foge da presença do Anjo, escondendo-se em sua barricada).
Wanda: (abrindo a Bíblia na página marcada) Senhor, o que
estou te pedindo não é nada fora da Bíblia, está
aqui na Tua Palavra. Não é nenhuma invenção
de minha cabeça. Eu quero! Eu preciso!
(Wanda agora faz uma prece silenciosa, mexendo somente os lábios.
Deixa as mãos na posição de receber).
(Demônio apanha uma espada, avança até Wanda. Sempre
dando a impressão de estar lançando-lhe palavras desafiadoras,
desencorajadoras e de zombaria).
(Anjo estende a mão ao alto, como se estivesse recebendo do próprio
Deus, armamentos espirituais. Esses, para a platéia serão
invisíveis).
Anjo: (Após ter recebido o armamento, faz como se estivesse colocando
um cinturão em Wanda) Proteja seus quadris com a Verdade. Jesus
é esta Verdade. E ele é a Verdade que liberta.
(Demônio, traiçoeiramente, acerta um golpe de espada na altura
dos quadris de Wanda. Demonstra sentir um forte impacto, como se estivesse
chocado ferro com ferro).
(A moça dá a impressão de não perceber a guerra
entre as forças travada em sua vida).
(Demônio demonstra estar furioso, arremessando ao chão sua
espada. Volta ao seu Q.G.).
(Anjo demonstra alegria. Olha para o céu, louvando a Deus).
(Anjo estende a mão aos céus, como se estivesse recebendo
um novo armamento. Supostamente é uma couraça).
Anjo: ( vestindo a couraça na moça) Proteja o peito e o
coração coma justiça. Pois o Senhor Jesus Cristo
transferiu a vós a sua Justiça.
(Enquanto isso, o Demônio já se aproximou com outra espada.
Ele tenta atingir o coração de Wanda. Como a espada é,
propositadamente, de isopor, ela se quebra. Ele se enfurece, lança
para longe o toco de espada, voltando ao seu Q.G.).
(Anjo louva a Deus. E recebe um novo armamento, que é um escudo).
Anjo: (armando a moça) Seu escudo é a fé. E com ela
você poderá apagar todos os dardos inflamados do inimigo.
(Demônio apanha um dardo inflamável. Faz mímica de
estar riscando um fósforo e ateando fogo no dardo. Lança-o
contra Wanda. Fica a acompanhar todo o trajeto do dardo. Mas algo dá
errado. Demônio foge, como se o dardo voltasse contra ele. Ainda
em fuga, como em desenho animado, o dardo acaba atingindo o seu traseiro).
(Ele faz cara feia, tirando o dardo de sua carne. Mancando, volta para
o Q.G.).
(Anjo louva a Deus, recebendo um novo armamento que é um capacete).
(Demônio apanha seu porrete (“anestesia contra o pecado”)).
Anjo: (Colocando o capacete invisível na cabeça de Wanda)
Tome o capacete da Salvação!
(Demônio, já completamente são, aproxima-se de Wanda
com o porrete. Acerta-lhe um golpe na cabeça. Ele sente um tremendo
impacto, como se tivesse batido em algo maciço. Furioso, lança
fora o porrete. Batendo os pés, de raiva, volta para seu Q.G. Fica
a observar os movimentos dos demais personagens).
Anjo: (chamando a atenção de Wanda) Hei! (Wanda abre o olho)
Tomai a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus. (aponta
para a Bíblia).
Wanda: (aproximando-se do Livro) Minha Bíblia!
(Wanda vai até a cama. Embaixo da colcha há escondida uma
enorme espada. Nela há escrito “Bíblia” em letras
garrafais).
(NOTA: A personagem Wanda deve apanhar a espada e, simultaneamente, como
num passe de mágica, esconder a Bíblia. A idéia é
como se a Bíblia se transformasse, literalmente, em espada).
Demônio: (apanhando sua espada). (sua voz volta ao normal) Então,
é uma luta! (coloca a mão sobre o lábio, como se
estivesse maravilhado por sua voz ter voltado) Voltou! (à Wanda)
Uma de espadas. (desafiador) Venha! (mesmo com essas palavras, é
o Demônio que se aproxima, empunhando sua espada).
(Wanda empunha a espada que é no mínimo o dobro da do outro
personagem).
Demônio: (engole seco) Glup! (num sorriso de desapontamento) Acho
que não vai ser desta vez!
(Demônio, amedrontado, caminha de costas. Tropeça em qualquer
coisa e cai. Debanda até seu Q.G. Todo atrapalhado, tenta juntar
suas coisas, tomando cuidado de deixar por último a caixa de tachinhas
antievangelismo).
Demônio: (espalhando as tachinhas pelo palco) Eu vou! Mas minhas
tachinhas ficam! Eheheheh! (Para Wanda) Eu sempre estarei ao seu redor,
esperando uma brecha. Um dia eu ainda lhe – nhac! Vou lhe tragar!
Anjo: Estaremos esperando!
(Anjo faz mímica de estar recebendo um novo armamento, são
sapatos. Ele ajuda a moça a calçá-los).
Anjo: Os seus sapatos conduzirão os seus pés por um longo
caminho, onde você irá transmitir as boas-novas de salvação.
(Wanda age como se estivesse despertado de um sonho. Ela tem agora um
ar de guerreira. Corre pelo palco. Algumas vezes pára, fica a observar
algo distante. As tachinhas invisíveis já não são
mais sentidas).
(Anjo observa Wanda. Dá um sorriso de missão cumprida. Ergue
os olhos para o céu, como que para louvar o Criador. Feliz, sai
de cena).
Demônio: (furioso) Droga! Mil vezes droga! (lamentando) Por que
é que tinha que existir Bíblia? (apanhando suas coisas)
Derrotado de novo! (saindo de cena) O que é que eu vou dizer para
o “chefe”? Estou frito!
Wanda: Agora, sim! Estou preparada para a guerra. Com a armadura de Deus
tudo fica mais fácil. (pisca para o público) Minha guerra...
Aliás, nossa guerra! Eu não estou sozinha nessa batalha.
Essa guerra não é contra pessoas feitas de carne e sangue.
Não vou usar minha espada (mostra a Bíblia, que propositadamente
já foi trocada pela espada no decorrer da cena) para golpear meu
irmão para vê-lo sangrar e me fingir de “santinha”.
A Palavra é luz, e o Espírito de Deus fará com que
meu irmão saia da escuridão. Não vou golpeá-lo
para mostrar o fio da Palavra, que é mais cortante do que alguma
espada de dois gumes, mas vou tratar de suas feridas. (ao público)
E aí, irmão! Não quer se alistar para esta guerra,
sob o comando do Grande General? Tomar posse da armadura de Deus? Entrar
para o batalhão de Jesus? As forças do inferno não
prevalecerão contra vocês!
Fim
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