ACIDENTE
Luana Waskievicz
Personagens:
Repórter
Câmera
Garota
Ajudante
3 para-médicos.
Abre a cortina e o cenário já
está pronto.
O câmera com um ajudante e o
repórter se preparam para começar a reportagem.
Repórter:
Anda, rápido com esse negócio, a gente precisa começar
de uma vez.
Câmera:
Calma.
Repórter:
Não está vendo? Daqui a pouco a gente perde essa
matéria.
Câmera:
Deu, deu. Esta tudo pronto, pode começar, conta até 3.
Repórter:
(respira fundo) Boa noite. Estamos na avenida principal de São
Paulo, onde acaba de acontecer um grave acidente. Um rapaz bêbado,
dirigindo um pálio branco, perde o controle da direção,
invadindo a pista contraria, onde se choca contra um celta vermelho.
A garota que dirigia o celta encontra-se em estado grave, como
podemos ver (mostrando a garota no chão). Só um
instante, parece que ela esta falando alguma coisa. (aproxima-se da
moça colocando o microfone perto desta). Ela chama pelo pai,
me acompanhem. (dirigindo-se para o ajudante) Venha cá, anote
tudo o que ela está falando, tudo.
Garota:
Pai, pai, pai, pai, pai (...)
Fui a
uma festa, e lembrei do que você me disse. Você me pediu
que eu não tomasse álcool, pai. Então, ao invés
disso, tomei uma ‘’sprite’’.
Senti
orgulho de mim mesma, e do modo como você disse que eu me
sentiria e que não deveria beber e dirigir.
Ao
contrário do que alguns amigos me disseram, fiz uma escolha
saudável, e seu conselho foi correto, papai. E quando a festa
finalmente acabou, e o pessoal começou a dirigir sem condições
(...) Fui para o meu carro, na certeza de que iria para casa em
paz...
Eu nunca
poderia imaginar o que estava me aguardando, pai.
Algo que
eu não poderia esperar.
Agora eu
estou jogada na rua, e eu ouvi o policial dizer que o rapaz que
causou este acidente estava bêbado...
Pai, a
sua voz me parecia tão distante.
Meu
sangue está escorrido por todos os lados, pai, e eu estou
tentando com todas as minhas forças não chorar, mais
está difícil.
Eu posso
ouvir os para-médicos dizerem: ‘’A garota vai morrer.’’
E a garota sou eu, pai.
Tenho
certeza de que o garoto não tinha a menor idéia,
enquanto ele estava a toda velocidade, afinal, ele decidiu beber e
dirigir, e agora eu é quem tenho que morrer.
Então
porque as pessoas fazem isso, pai?
Sabendo
que isso vai arruinar vidas?
E agora
a dor esta me cortando como uma centena de facas afiadas(...)
Diga a
minha irmã para não ficar assustada, pai!
Diga a
mamãe que ela seja forte, e quando eu for para o céu
que ela lembre sempre da ‘’garotinha da mamãe’’ com
carinho e que ela guarde bem nossos bons momentos.
Alguém
deveria ter dito àquele garoto que é errado beber e
dirigir.
Talvez
se o pai dele tivesse dito, eu ainda estaria com possibilidades de
continuar viva.
Minha
respiração está ficando fraca, pai, e eu estou
realmente ficando com medo.
Eu acho
que estes são meus momentos finais e eu me sinto tão
desesperada.
Eu
me lembro das milhares de vezes que você pediu para que eu
fosse pra igreja junto contigo. O quanto você dizia que era
legal e que eu iria gostar de estar lá. Mas eu lembro também
pai, que eu nunca te dei ouvido.
Se eu
tivesse escutado pelo menos uma vez, não teria ido à
festa e não estaria aqui agora.
Eu
gostaria que você pudesse me abraçar, pai.
Enquanto
estou estirada aqui morrendo, eu gostaria de dizer que eu te amo,
pai.
Eu
queria te agradecer por tudo que fizestes por mim.
E pedir
perdão, pelo que eu não fiz por você.
Você
não está aqui, mas eu te amo, Adeus...!
Os para-médicos vêm que
a garota morreu, os repórteres se levantam e ficam paralisados
com o que ouviram e o pai da menina entra correndo e cai em desespero
ao ver a filha morta, sendo levada pelos médicos.
Ajudante:
Essas palavras foram escritas por mim, eu presenciei o acidente. Sua
filha, enquanto agonizava ia dizendo as palavras e eu anotando. Eu
quero que o Senhor fique com isto, pois é uma carta feita por
ela para você, de despedida.
O pai pega a carta, começa a
ler e pasmado se ajoelha lentamente e começa a chorar.
As cortinas se fecham com uma música
lenta.(David Crawder Band (faixa 11)).
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