ATO ÚNICO
(Abre o pano - cenário)
Dois homens conversam. Um é o senhor, homem de aparência
rude e cansado. O outro é um empregado seu, rapaz diligente
e prestativo. Os dois estão trabalhando, enquanto falam, numa
espécie de máquina gigantesca, de bojo grande. Tal máquina
fora invenção do senhor, homem de conhecimento científico
aprofundado. Eles estavam apenas ajustando os últimos detalhes
no acabamento. Enquanto o seu ajudante permanece calado, o inventor
fala de sua vida passada com amargura. Segundo ele, não houve
homem mais frustrado em suas tentativas e mais debochado por causa
delas do que ele próprio. “O mundo só soube rir
de mim e meus trabalhos”, diz ele, “Eu sou um fracassado”.
Enquanto a máquina é preparada ouve-se uma música
ao fundo. Trata-se de um som metálico, quase mecanizado.
De repente, o inventor muda o tom de sua voz e passa a dizer que ainda
há uma chance para ele, que ele ainda irá vencer e daí
então ele é que vai rir do mundo. “Sim”,
explica ele, “ainda há uma chance para mim, porque na
vida SEMPRE HÁ A SEGUNDA VEZ, SEMPRE EXISTE A SEGUNDA OPORTUNIDADE
. E eu conto com um grande aliado, o meu último invento A MÁQUINA
DO TEMPO” .
Ao pronunciar estas palavras, apontando para a máquina que
está perto de si, soa uma música delirante, quase fúnebre.
A máquina é colocada como uma heroína de batalha,
como uma tábua de salvação.
Obedecendo à ordem do seu senhor, o ajudante lhe traz uma lista
com dizeres grandes. Nesta lista estão escritas as coisas mais
importantes nas quais o inventor havia falhado na vida, segundo o
que ele acreditava. A lista é breve e objetiva:
DINHEIRO
FAMA
MULHERES
POSIÇÃO
Em todas estas coisas ele havia falhado. Não conseguiu dinheiro,
nem fama, as mulheres nunca tinham nem olhado para ele e nem nunca
usufruiu de uma posição que ele achasse digna.
Mas agora tudo iria mudar, pensava ele. Com sua última invenção,
nada poderia fazer com que ele não se tornasse rico, famoso,
cobiçado pelas mulheres e merecedor de uma posição
de respeito e honra dentro da sociedade.
O plano do inventor não era complexo, apesar da complexidade
da sua invenção. Era seu invento visitar o passado primeiramente,
em sua máquina e aproveitar o seu conhecimento sobre este passado
para fazer negócios que lhe pudessem render bastante. Por exemplo,
se pudesse voltar há uns 20, 30 ou mesmo 50 anos atrás
poderia comprar terra que naquele tempo não tinham validade,
mas que ele sabia teriam, depois de um certo tempo. Poderia, pensava
ele, comprar as ações das companhias que só ele
sabia iriam se tornar importantes; poderia investir em shows, poderia
tornar-se amigo de pessoas do passado que só ele sabia se tornariam
importantes.
Com este pensamento em mente, ele decidiu partir: “Primeiro
visitarei o passado para me tornar um super-homem” - dizia ele
- “E depois irei ao futuro para ver o quanto eu estarei famoso,
rico e benquisto nos anos vindouros”.
E assim sucedeu. Doze horas por dia ele passa a sair em suas viagens
pelo passado. Os controles da poderosa máquina lhe permitem
chegar ao ano que ele quer e mesmo à hora exata no passado.
A máquina é agora idolatrada por ele. Para ele, só
existem ele e a máquina.
Ele pode ir e voltar do passado no instante que quiser. Os controles
da máquina o permitem. Por vezes, quando os negócios
rendem, ele fica 5 ou 6 horas num mesmo lugar. Outras vezes, ele volta
logo, dizendo que nada deu certo. Mas através de suas especulações,
ele realmente consegue coisas importantes. Compra ações,
terras onde o petróleo irá brotar, inventa instrumentos
que só daí a vinte anos seriam inventados, visita pessoas
futuramente importantes, até na loteria, em corridas e sorteios
ele joga e com seu conhecimento, não deixa de ganhar.
“A fortuna que estou amealhando é incalculável”
- diz ele ao seu ajudante, quando retorna das viagens. “Por
vezes não dá certo os meus negócios, mas SEMPRE
HÁ UMA SEGUNDA CHANCE, SEMPRE HAVERÁ UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE
. Eu falhei no princípio, mas na minha segunda vez eu não
vou falhar”.
O tempo passa, e com ele vai-se firmando a alegria incontida do inventor.
Ele agora não só faz especulações. Visita
lugares distantes, há duzentos, trezentos, às vezes
mil anos atrás para presenciar a história e para “aprender
com os grandes homens do passado o garbo, os modos, a atraência
de um grande homem, como eu serei”, segundo seu ponto de vista
egoísta.
Às vezes, até brincadeiras faz. Por exemplo, certa vez
ele mandou que o seu ajudante ligasse a máquina para qualquer
lugar do passado, ou seja, ao acaso, para que ele não soubesse
pra onde estava indo. E assim sucedeu. Ele, ao acaso foi lançado
no passado, há 1973 anos atrás. E o que viu lá?
Nada mais, nada menos do que Jesus Cristo sendo espancado e obrigado
a carregar a cruz nas costas, em direção ao local de
sua morte. O inventor se surpreende, mas em seguida, faz com que seja
trazido de volta ao presente.
Quando ele retorna o seu ajudante, surpreendido lhe indaga o porquê
da sua volta repentina.
“Voltei a uma época, na qual eu não poderia ganhar
ou aprender nada. Imagine, fui lançado ao local onde este tal
de Jesus Cristo que a história fala estava sendo levado para
ser crucificado”.
O ajudante fica estarrecido de surpresa. “Mas e porque o senhor
não disse aos que os estavam levando que aquele realmente é
o filho de Deus, como ficou conhecido depois da sua crucificação?”
– pergunta ele ao inventor. “O senhor sabia que o mundo
inteiro descobriu depois que eles estavam matando um inocente, que
eles estavam matando o filho de Deus! Por que não os impediu?
Por quê?”.
“Ora”, responde o inventor,“não há
tempo para estas coisas. Eu preciso de tempo para mim, entendeu, para
o meu futuro. Que é que eu ganharia com isto? Hein? O quê?
Só complicação. E ademais eu sempre posso voltar
lá assim que eu quiser. Eu posso voltar lá sempre que
eu quiser, se for o caso, entendeu. SEMPRE EXISTE UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE,
SEMPRE HÁ UMA SEGUNDA CHANCE.
O ajudante baixou a cabeça. Tudo ficou por isso mesmo. O incidente
foi esquecido e o tempo passou depressa. As viagens ao passado continuaram
como dantes e o inventor sempre retornava com uma expressão
de contentamento.
Até que enfim chegou o dia supremo. Segundo o inventor, de
acordo com as fortunas que ele havia conquistado no passado, o seu
futuro seria grandioso. Ele estava pronto para, na sua idolatrada
máquina do tempo, ir ao futuro para ver a si mesmo, para ver
a sua fortuna, os seus bens, e depois, voltar ao presente e simplesmente
esperar que os dias passassem para que o seu brilhante futuro chegasse.
O inventor mostra-se ansioso e seu semblante denota satisfação.
Ele pede ao ajudante que lhe traga a lista das suas coisas mais importantes.
A lista é trazida. Nela, ainda se podem ler as palavras:
DINHEIRO
FAMA
MULHERES
POSIÇÃO
“Sim”, diz o inventor, “agora eu vou ter tudo isto:
mulheres, fama, fortuna e posição, tudo isto”.
“Agora”, continua ele, “o mundo vai parar de rir
dos meus fracassos e eu vou passar a rir do mundo. Eu provarei ao
mundo que para tudo EXISTE UMA SEGUNDA CHANCE, QUE SEMPRE HÁ
A SEGUNDA OPORTUNIDADE e que nesta segunda chance EU VENCI, EU VENCEREI!”.
Ele dá ordem ao seu ajudante que acione os controles da máquina
em direção ao futuro.
O inventor leva consigo para esta primeira viagem ao futuro a sua
lista sagrada: MULHERES, DINHEIRO, POSIÇÃO, FAMA. Ele
está exultante.
“Ligue para 1985” - ele ordena - E a viagem começa.
Mas daí há instantes ele é trazido de volta.
“É estranho” - diz ele - “mas não
havia nada lá”. “Vamos tentar novamente, ligue
para 1980”.
Mas desta vez também nada havia. O inventor surpreende-se.
“É estranho”, diz ele, “Muito estranho”.
“Vamos tentar ainda uma vez mais. Ligue para daqui a dois anos,
ligue para 1975”.
Uma música lírica violenta cai sobre o palco. É
o clímax da história. O inventor é lançado
ao ano de 1975 e ele se encontra frente a frente com o mestre Jesus.
Este está em meio à declinação destas
palavras:
“... Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes
de beber; era forasteiro e me hospedaste; estava nu e me vestistes;
era enfermo e me visitastes; preso e fostes ver-me...”.
E o inventor, com a sua lista apertada entre os braços é
empurrado e arrastado para a esquerda de Jesus, enquanto o pano desce
e as palavras célebres, são ouvidas:
Porque neste mundo o homem poderá
Tentar muitas em muitas vezes;
Porque neste mundo o homem poderá
Falhar e recomeçar.
E ele terá uma, duas, três chances.
Mas no reino de Deus, no juízo de Deus
O homem que foi julgado e colocado
À esquerda do Mestre, ao final da luta,
Este não vai recomeçar. Vai penar
Por não ter encontrado o caminho do céu
Ou por ter escolhido um caminho outro,
Mais tentador, mas errado e torto, para substituir
A verdade da vida.