Teatro Cristão
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E ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

 

Marilda Silva de Souza

 

ELENCO

Paulo
Renata
Adriana
Henrique
Denise
Marina
André
Nelza
Altair
Glória
Gisele
Repórter
Narrador
Violonista
Jovem I
Jovem II
Jovem III
Policial Rodrigues
Policial Sampaio
Júlio
Sidney

INDUMENTÁRIA: Da época atual.


ACESSÓRIOS
Ferro elétrico
Carrinhos plásticos (alguns brinquedos)
Trouxa de roupas
Pacote de biscoito
Balas
Duas laranjas
Saquinho plástico com talco
Dinheiro de fantasia
Boletos de loto e loteria
Violão
Bíblia
Novo Testamentos
Material escolar


MÚSICAS
Dando milho aos pombos
Trem das onze
Entre tapas e beijos
Eu vou crescer
Andam procurando a razão de viver


E ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


ATO 1

Inicia a peça com a voz do repórter ao microfone, como se fosse um telejornal.

REPÓRTER – Na tarde de hoje o banco... Foi assaltado por uma quadrilha fortemente armada. Rederam os seguranças, fizeram os clientes de reféns e após arrombarem o cofre e fugiram levando uma quantidade em dinheiro ainda não calculada.

Assaltante tenta roubar supermercado, mas é rendido por populares.
A menor Leonice da Silveira saiu de sua residência a quatro dias com destino a escola e desapareceu.

VIOLONISTA - (CANTANDO) “Isto tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos”.

JOVEM I – (entra senta no chão. Tapa os ouvidos e diz:) – Eu não ouço nada – (PERMANECE SENTADO)

REPORTER – Com a forte chuva de ontem um barraco em VV desabou sobre uma família inteira que dormia tranqüilamente na hora do desabamento.

Idoso de 78 anos morre na porta do pronto socorre por falta de atendimento médico.

Bebê é encontra boiando em saco de lixo na lagoa da Pampulha em BH.

VIOLONISTA – (CANTANDO) – Isto tudo acontecendo...

JOVEM II – (ENTRA E COBRE OS OLHOS COM AS MÃOS) – Eu não vejo nada!

REPORTER – Marido mata a mulher e é preso ao tentar fugir.

Namorada se atira do segundo andar do prédio onde mora porque descobriu que o namorado estava lhe traindo com sua própria irmã.

E não peca ainda nesta edição: nova testemunha na CPI do mensalão.

VIOLONISTA – (CANTANDO) – Isto tudo acontecendo...

JOVEM III – (ENTRA E SENTA NO CHÃO E DIZ:) – Eu não falo nada! (TAPA A BOCA COM AS MÃOS).

FECHA-SE AS CORTINAS ENQUANTO SE OUVE A VOZ DO NARRADOR.

NARRADOR – Como caminha a humanidade? Que rumo ela tem tomado? Qual o meu papel como parte da humanidade?
As noticias aqui ouvidas tem sido uma realidade em nossos dias. O que temos feito para mudar isto? Sentamos em nossos confortáveis sofás e simplesmente ouvimos indignados? O mundo está desabando em nossa volta. Não podemos fingir que nada ouvimos, nada vemos... Não podemos nos calar. A humanidade clama por socorro!

ATO 2

CENÁRIO: Uma sala modesta.
Abre-se as cortinas. Paulo e Renata voltam da escola, cada um com uma caixa de lápis de cor nas mãos.

PAULO – Renata, se a mamãe perguntar onde conseguimos os lápis de cor, já sabe o que responder.

RENATA – Já sei: digo que ganhamos na escola.
PAULO – Isto mesmo. Se prepara a mamãe vem vindo aí.

Nelza entra.
NELZA – Á já chegaram? Ótimo! Tenho serviço para vocês.

PAULO – Eu não, mãe, vou pro treino de futebol.

RENATA – E eu vou fazer o meu dever. Tem um montão.

NELZA – Vocês vão fazer o que eu estou mandando. Paulo vai levar a roupa para dona Antônia.

PAULO – De tarde eu levo.

NELZA – Agora!

PAULO - Que droga! Por que tudo tem que ser eu? (SAI DA SALA RESMUNGANDO).

NELZA – E você Renata, almoça e dá um jeito nesta casa. Eu tenho muita roupa para passar.

RENATA VAI SAINDA E TROMBA COM PAULO QUE VEM DE VOLTA COM UMA TROUXA DE ROUPA NA CABEÇA.

PAULO – Jumenta cega, não olha onde anda não?

RENATA – Seu burro, eu não tive culpa.

NELZA – (COM VOZ ALTERADA) – Agora que esta casa virou um pasto, querem ir fazer o trabalho de vocês? E segura isto direito, Paulo, antes que me amasse toda a roupa.

PAULO – (SAINDO) – Por mim pode amassar tudo.

NELZA – Sai logo daqui antes que eu te arrebente a boca seu malcriado. O que é seu está sendo preparado. Pode esperar.

FECHA-SE AS CORTINAS.

ATO 3


ABRE AS CORTINAS COM NELZA NA SALA PASSANDO ROUPA. RENATA AJUDA A MÃE. ENTRA PAULO ESCONDENDO ALGO SOB A CAMISA.

NELZA – Que hora, hem Paulo! Até agora para entregar uma trouxa de roupa? Não sabia que eu estava precisando de você aqui?

PAULO – É que dona Antônia me pediu para ajudar o pedreiro a carregar lajotas para fazer o muro. Ela até me deu este relógio. (FALA TIRANDO O BRAÇO PARA FORA DA CAMISA, REVELANDO O RELÓGIO).

NELZA – Vai tomar banho e levar a roupa da Tereza. Já está pronta.

PAULO SAI E RENATA VAI ATRÁS DELE.

FECHA AS CORTINAS.

ATO 4


MUDA O CENÁRIO COM APENAS PAULO E RENATA

RENATA – Paulo, lava as vasilhas para mim.

PAULO – Eu não. Vou tomar banho e levar a roupa.

RENATA – Então eu vou falar para a mamãe como foi que você conseguiu este relógio. Pra mamãe não. Para o papai.

PAULO - Eu ganhei. Não ouviu eu falar?

RENATA – Você roubou. Pensa que eu não sei?

PAULO – Vou falar com a mamãe que você está me chamando de ladrão.

RENATA – Pode falar. Você roubou mesmo.

PAULO – Te dou o CD dos... que você tanto quer.

RENATA – Não.

PAULO – Te consigo um celular.

RENATA – Não quero.

PAULO – Então o que você quer?

RENATA – Que lave as vasilhas.

PAULO – ah sua horrorosa, isto é coisa de mulher.

RENATA - Você é que sabe. (VAI SAINDO) – Manhêêê!

PAULO – Ta bom, bocão, eu vou lavar.
FECHA-SE AS CORTINAS.

ATO 5


VOLTA O CENÁRIO DA MÃE. NELZA CONTINUA PASSANDO ROUPA. RENATA VOLTA PARA A SALA E COMEÇA A BRINCAR COM SUA SOBRINHA ADRIANA QUE JÁ ESTAVA NA SALA.

NELZA – Renata, você já lavou as vasilhas?

RENATA - O Paulo vai lavar.

NELZA – por quê o Paulo?

ANTES QUE RENATA RESPONDA, ENTRA A OUTRA FILHA DE NELZA A MARINA. A PEQUENA ADRIANA AO VER A MÃE, SAI CORRENDO AO SEU ENCONTRO.

ADRIANA – Oba! A mamãe chegou cedo hoje.

MARINA – filhinha querida (PEGA ADRIANA NO COLO) FEZ MUITA BAGUNÇA?

ADRIANA – Não. Eu me comportei.

MARIANA – Que menina maravilhosa! Ela não faz bagunça.(PARA A MÃE) O pai chegou, mãe?

NELZA – Ainda não.

MARINA – (COLOCANDO ADRIANA NO CHÃO) – ta demorando. Ele sempre chega antes de mim. Ele já recebeu?

NELZA - Ia receber hoje.

MARINA - Vou ver se ele me empresta um dinheiro até eu receber.
NELZA – pode ser. Antes de receber ele já gastou tudo.

MARINA - Será? Como é que o papai consegue torrar todo o salário dele assim e não ficar com nada?

NELZA – Ah! Não sabe? Eu sei. Procura nos botecos, no jogo que você encontra. Não sei quando o seu pai vai aprender. O dinheiro que ganho nas minhas lavagens de roupas, não tenho coragem de gastar com um vestido para mim. Seu pai esbanja o que ganha.

NESTE MOMENTO PAULO ENTRA NA SALA E NO MOMENTO EXATO EM QUE MARINA VAI SENTAR-SE NA ÚNICA CADEIRA, ELE PASSA À FRENTE E SENTA.

MARINA - Pode levantar Paulo, Você ficou em casa vadiando até agora. Eu estava trabalhando.
PAULO – eu também estava trabalhando.

MARINA – Anda logo e deixa de conversa mole.

PAULO – (DESAFIADOR) – Não e não.

MARINA - Anda logo! Manda ele levantar, mãe.

NELZA – Paulo já levou a roupa da Tereza?

MARINA – É! Vai logo.

PAULO – Ela não está em casa.

MARINA – não me interessa. Quer me deixar sentar, sua anta?

PAULO – Eu ia deixar. Só porque me xingou, eu não deixo.

NELZA – Oh meu Deus! Hoje você está querendo, Paulo. Levanta daí e vai fazer o que eu mandei.

PAULO – porcaria. Eu tenho de levantar para a princesa sentar. (LEVANTA).

MARINA – Isto mesmo.

PAULO – Cuíca desmamada!

NELZA – vai fazer o que eu mandei, Paulo.

PAULO – (GRITANDO) eu não. Vou quando eu quizer. Ninguém manda em mim.

NELZA – Ah não. Vou te ensinar se mando ou não.

NELZA O SEGURA PELO BRAÇO E LHE DÁ UMA SURRA DE CHINELO ENQUANTO ELE SE CONTORCE, IMPLORANDO PARA QUE ELA PARE DE BATER.
APÓS ALGUMAS CHINELADAS...

NELZA – Você vai ou não vai fazer o que eu mandei, Paulo?

PAULO – (CHORANDO) – eu vou, mãe. Não me bata mais. Já estou indo.

NELZA – seu ignorante. Quanto mais estuda, mais burro fica.

PAULO SAI COM A TROUXA DE ROUPAS ENQUANTO ALTAIR ESTÁ VOLTANDO DO SERVIÇO.

ALTAIR – (FAZENDO GESTO DE CANSADO) – Que cansaço, meu Deus. Que dia custoso de terminar.

NELZA – E você: recebeu?

ALTAIR – recebi uma micharia que não dá para nada. A gente trabalha como burro de carga, quando chega no final do mês é aquela decepção.

NELZA – Tem que pagar o Joãozinho. Não agüento mais as cobranças dele.

ALTAIR – e porque ele está cobrando? Não sabe que só tenho dinheiro no final do mês?

NELZA – Ele não quer nem saber. |O que ele quer é receber.

ALTAIR – que se dane! Se ele bestar eu não pago coisa nenhuma.

NELZA – E a compra? Como vamos fazer se não pagar?

ALTAIR – Dou um jeito.

NELZA – Ah! Pra tudo você dá um jeito.

ALTAIR – E dou mesmo. Quando foi que eu deixei você passar fome?

NELZA – Não estou dizendo que você me deixa passar fome. Só acho que deveria segurar mais.

ALTAIR – Mais do que eu seguro? A única coisa que eu faço é um joguinho e beber uma cervejinha de vez em quando.

MARINA – De vez em quando pai?

ALTAIR – É sim. E não se meta, porque você, sim, esbanja.

MARINA – iiiih! Eu sabia que ia sobrar para mim.

ALTAIR – Todo mês é uma roupa nova, sapato novo. O guarda roupa está que não cabe mais nada.

MARINA – Mas eu ajudo em casa todo mês. É sagrado.

ALTAIR – E eu? Eu não ajudo? E levanta daí. Me deixa sentar.

MARINA LEVANTA, ALTAIR SENTA E CONTINUA.

ALTAIR – Sabe quanto tempo que não compro uma camisa? Eu nem sei. Esta daqui (PEGA NA CAMISA) foi ganhada.

MARINA – Ta bom, pai, ta certo. Eu sou a única que gasta aqui.

ALTAIR – Você e o André, aquele desmiolado.

NELZA – ah não! Do André você não tem o direito de falar. Ele trabalha naquele salão o dia todo e até das gorjetas ele me dá.

ALTAIR – Pronto! Mexi com a menina dos olhos dela. Seu filho não honra nem as calças que veste. Tenho vergonha de dizer que é meu filho. Mundo moderno. Moderno uma droga. É pouca vergonha mesmo.André só falta vestir uma saia. Ele só não fez isso porque sabe que se fizer eu o coloco para fora.

NELZA – ta bom, Altair, já acabou, acabou.

NESTE INTANTE PAULO VOLTA COM A TROUXA DE ROUPA NAS MÃOS.

NELZA – Ué, a Tereza saiu?

PAULO – eu falei que não tinha ninguém em casa.

NELZA – quer responder direito quando eu falar com você, menino?

PAULO VAI PARA O QUARTO.

NELZA – Vai tomar seu banho, Altair. Daqui a pouco eu quero tomar o meu.(PARA RENATA) Vai pegar a toalha para seu pai, Renata.

RENATA FAZ DE CONTA QUE NÃO OUVE E CONTINUA BRINCANDO COM ADRIANA.

ALTAIR – (GRITANDO) Paulo...Paulo...

NELZA – Paulo, não está ouvindo seu pai?

PAULO – (NA SALA) – senhor.

ALTAIR – pega meu chinelo

PAULO PEGA O CHINELO E JOGA AOS PÉS DO PAI.

ALTAIR – tira meu sapato para mim. Não consigo nem me curvar de dor nas costas.

PAULO TIRA OS SAPATOS DO PAI.

MARINA – Paulo hoje aprendeu uma dança nova, né Paulo?

PAULO – (MAL HUMORADO) – cale a boca otária.

MARINA – debaixo do chinelo da mamãe ele dança direitinho.

NELZA – (GRITANDO) Renata, já foi pegar a toalha para seu pai?

RENATA (SAINDO) já estou indo.

MARINA – bom. Deixa eu ir fazer o jantar. Tem que fazer mesmo.

ALTAIR – Esta janta ainda não está pronta?

MARINA – Pai eu também cheguei agora.

ALTAIR – (INCONFORMADO) – Aaaaahhhh!!!

MARINA – estava me esquecendo... Denise ligou hoje para mim.

NELZA – E ela como está?

MARINA – Bem. Sábado ela vem.

ALTAIR – por mim não precisa vir.

NELZA – por mim precisa. É minha filha também. Sem noticias basta o Henrique.

ALTAIR – São dois filhos que para mim não existem. Nunca ligaram para mim. Mas a vida é assim mesmo. É pra isto que a gente cria os filhos. Um, me mata de vergonha, a outra uma vagabunda qualquer, o outro um marginalzinho. É isto aí.E como se não bastasse, tenho uma neta sem pai.

MARINA – pesou o ambiente. Deixa eu ir fazer o jantar.

ALTAIR – Vou dar uma volta enquanto o jantar fica pronto.

ALTAIR – fica quieto em casa, Altair. Não está com dor nas costas? Vai descansar.

ALTAIR – Eu não vou demorar.

PAULO – Deixa eu ir com o senhor, pai.

ALTAIR – Não. Fica tomando conta da casa. Deixo você como o homem da família.

NELZA – Vai levar o dinheiro para rua? Você vai gastar tudo e não vai pagar o Joãozinho.

NELZA – eu sei o que estou fazendo, Nelza. Não sou criança. Daqui a pouco eu volto.

ALTAIR SAI PARA A PORTA QUE DÁ PARA A RUA. FECHA-SE AS CORTINAS..


ATO 06

ABRE-SE AS CORTINAS COM NELZA NA SALA PREOCUPADA COM O MARIDO.

MARINA – (ENTRANDO NA SALA) – Mãe, ainda não está na sala?

NELZA – Vai dormir você. Amanhã tem que levantar cedo.

ANDRÉ – (CHEGANDO DA RUA COM VOZ EFEMINADA) – Ai meu Deus, como eu trabalhei.(BEIJA A MÃE) credo, mãe que cara de preocupada.

NELZA – seu pai.

ANDRÉ – Oras, mãezinha, ainda não se acostumou? Conhece o papai, daqui a pouco ele chega. De cara cheia, mais chega. Bem... vou dormir.

NELZA – não vai jantar.

ANDRÉ – Não. Fiz um lanche. Não posso engordar. Tenho que manter a forma. (BEIJA A MÃE) – Boa noite mãezinha.

NELZA – Vai dormir também, Marina. Vou esperar por seu pai.

MARINA – Ta certo. Boa noite, mãe.

NELZA FICA SOZINHA NA SALA POR ALGUNS INSTANTES. ALTAIR VOLTA PARA CASA COMPLETAMENTE BÊBADO.
ALTAIR – (CANTANDO) “não posso ficar mais nem um minuto com você. Sinto muito amor, mas não pode ser...” (OLHANDO PARA NELZA) Oi meu amor. Me esperando? Não se preocupe, eu não estou bêbado. Só bebi uma cervejinha. Por que ainda não foi dormir.

NELZA – Te esperei para o jantar.

ALTAIR – Eu não quero jantar.

NELZA – Então vai dormir.

ALTAIR – Depois. Não estou com sono.

NELZA – Você trabalha amanhã.

ALTAIR – E daí? Se eu não quiser eu não vou. É, tá decidido: amanhã eu não vou trabalhar. Vou tirar o dia de folga.

NELZA – Ta bom, mas vamos dormir. Eu estou cansada. Só estava esperando você e o André chegarem.

NELZA – Aquela “pouco vergonha” já chegou?

NELZA – Não começa Altair...

ALTAIR – Quase me mato para criar um filho pra dá nisso. Denise era tão bonita quando nasceu. Nunca pensei que ela fosse chegar ao ponto que chegou.

SILÊNCIO...

ALTAIR – E o Henrique ainda me culpa pela morte da irmã. Eu não podia adivinhar que ela fosse morrer. Meu Deus, o quê que eu fiz? (CHORANDO) Agora meu filho nem fala comigo. Nem aqui em casa ele vem.

NELZA – Não é hora de ficar lembrando o que passou. Jerusa está melhor do que nós.

ALTAIR – Que idade Jerusa teria se não tivesse morrido?

NELZA – Quatorze.

ALTAIR – Já estava uma moça... Eu não queria bater nela... Mas eu bati. Sou um burro mesmo, um grande covarde. Ela caiu com um tapa que eu dei nela. Eu podia ter parado, mas quanto mais eu batia, mais vontade de bater eu tinha.

NELZA – Para com isso, Altair, não foi sua culpa.

ALTAIR – Foi, foi sim. O Henrique tem razão em me odiar.

NELZA – Ele não te odeia. E chega. Vamos dormir. Estou cansada e você também.

NELZA O ABRAÇA PELA CINTURA E VÃO SAINDO.

ALTAIR – Eu matei minha filha e o meu filho me odeia.

FECHA-SE AS CORTINAS.


ATO 07

ABRE AS CORTINAS COM AS CRIANÇAS NA SALA.

PAULO – (SUPLICADNDO) Me dá um biscoito Renata.

RENATA – Eu já te dei.

PAULO – Só dois?

RENATA – também você é lento. Porque não pegou um pacote?

PAULO – Como? Seu Joãozinho estava olhando.

RENATA – Eu peguei e ele não viu.

PAULO – mas eu fiquei vigiando para você

RENATA – Oh garoto enjoado! Só mais três.

PAULO – Se você dividir no meio, eu te deixo andar na minha bicicleta. Várias voltas.

RENATA – deixa mesmo?

PAULO – Deixo. Pode ir pegar.

RENATA – Então ta. (FALA ENQUANTO DIVIDE O BISCOITO) mas não conta pra ninguém que eu peguei o biscoito.

PAULO – Eu juro. (CRUZA OS DEDOS E BEIJA-OS DE UM LADO E DE OUTRO)

NELZA ENTRA NA SALA

NELZA – Crianças, vão levar a roupa da dona Maria. Eu fiz duas trouxas.

NESTE MOMENTO CHEGAM DENISE COM DOIS AMIGOS.

DENISE – Olá pessoal. Sentiram minha falta?

RENATA – Denise, que bom. Você veio mesmo.

PAULO E RENATA CORREM E ABRAÇAM A IRMÃ. ENQUANTO OS DEMAIS FAMILIARES ENTRAM NA SALA.

DENISE – (PARA AS CRIANÇAS) – Nossa! Como meus irmãos cresceram.eu quero um
Beijo.

ADRIANA SE APROXIMA.

ADRIANA – Eu também estou aqui, tia.

DENISE – Oh meu amor (ABRAÇANDO-A) a tia esta te vendo. Aqui, eu trouxe um montão de bala para vocês.

PAULO RENATA E ADRIANA – oba!!!

DENISE – toma Paulo, divide com vocês.

DENISE CONTINUA...

DENISE – Quero que conheçam dois amigos meus: Júlio e Sidney.

Sidney – (VOZ EFEMINADA) – Olá muito prazer. Podem me chamar de Luana.

ANDRÉ – Que nome lindo! Acho que nossa amizade vai perdurar por muito tempo, Luana. (ESTENDEM A MÃO E SE CUMPRIMENTAM.)

ALTAIR – O que significa isto, Denise?

DENISE – O que significa o quê, pai?

ALTAIR – Quer difamar o nome de seu pai? Isto é tipo de gente que trás para minha casa?

DENISE – Pai o senhor está ofendendo meus amigos.

ALTAIR – Seus amigos? Mas é claro... os lugares que você freqüenta só podia dar nisso.

NELZA – Por favor, Altair...

ALTAIR – O quê? Você defende esta sem vergonhice?

DENISE – Escuta aqui, pai. Eu vim porque senti saudades de vocês, mas se for para o senhor ofender a mim e aos meus amigos, pode dizer que saio daqui imediatamente.

ALTAIR – Se é este tipo de gente que vai trazer pode ir e nunca mais voltar.

DENISE – É a sua última palavra?

ALTAIR – Já me ouviu. A porta da rua é serventia da casa.

DENISE – vamos embora, pessoal.

NELZA – Denise, não vá. Espere...

DENISE – Não se preocupe, mamãe, eu venho te vê. O pai já deixou bem claro que não me quer aqui. É um direito dele. É por isso que o Henrique não aparece.

ALTAIR – Não toca no nome desse vagabundo aqui.

Denise – Ele pode até ser vagabundo. Mas fique sabendo que se acontecer alguma coisa com ele, o senhor é responsável, pois ele é de menor. E digo mais: ele está se envolvendo com drogas. Se tem um pouco de consideração, procure por ele.

NELZA – Ah não! Ah não, meu Deus! (COMEÇA A CHORAR).

TODOS FICAM PERPLEXOS ENQUANTO DENISE E SEUS AMIGOS SAEM.

ANDRÉ – eu acompanho vocês.

MARINA – (CONFORTANDO A MÃE) Não fique assim, mãe.

ALTAIR SAI PARA A RUA AINDA NERVOSO. ENCERRA O ATO.

ATO 08

CENARIO: UMA RUA QUALQUER.

RENATO – Olha, Paulo, não é sua professora que vai ali?

PAULO – É ela mesmo. Oi Glória...

GLÓRIA – (SE APROXIMA DELES) – tudo bem Paulo? (LEVA UMA BÍBLIA).

PAULO – Tudo bem. Pra onde você vai.

GLÓRIA – Vou à igreja. Vamos comigo?

RENATA – Você é crente?

GLÓRIA – sou sim.

RENATA – engraçado...

GLÓRIA – o que é engraçado?

RENATA – Não é engraçado que eu queria dizer. Deve ser legal, mas às vezes deve ser muito chato.

PAULO – Não se pode beber, fumar, dançar.

GLÓRIA – Tudo aquilo que não glorifica a Deus não podemos fazer. Um alcoólatra não tem consciência de seus atos e o fumo é uma droga que mata.

PAULO – Não acho que o fumo é uma droga. Acho tão bonito uma pessoa fumando. Dá mais seriedade.

GLÓRIA – é mas o fumo é uma droga que mata mesmo. Causa câncer, entre outras doenças.

PAULO – eu pensei que droga fosse maconha, cocaína...

RENATA – eu tenho um irmão viciado.

PAULO – sua língua grande. Quer engolir esta língua?

RENATA – o quê que tem falar pra ela?

PAULO – o papai pediu para não falar com ninguém.

GLÓRIA – tudo bem, Paulo. Eu não comento nada com ninguém. Eu prometo.

PAULO – É que ele não é viciado. Quer dizer: ainda não.

GLÓRIA – sendo assim, fica mais fácil, Paulo. Vocês precisam ajuda-lo.
PAULO – E como eu faço isso?

GLÓRIA – Tendo muita paciência, conversando com ele. Ele precisa saber que é amado. Com amor e com Deus nada é impossível. É preciso acreditar. Crer em Deus, Paulo?

PAULO – Claro que sim.

RENATA – Eu também creio.

GLÓRIA – Então? Faz a parte de vocês e peça ajuda de Deus. Deus na pessoa de Jesus Cristo fez muitos milagreS no passado. Curou enfermos, fez cegos enxergar, paralíticos andou...

RENATA – (ADMIRADA) – Puxa!!!

GLÓRIA – é ISTO MESMO, Renata, até morto ele ressuscitou.

PAULO – Eu hem! Se um morto se levantar perto de mim eu saio correndo.

GLÓRIA – mas Jesus não teve medo. Ele fez isto para mostrar o seu poder e o seu amor por um amigo e para que você saiba que ele é capaz de libertar seu irmão do vício das drogas.

PAULO - puxa, Glória, nunca ouvi ninguém falar de Deus assim.

GLÓRIA – você gostou de ouvir falar de Deus?

PAULO – Eu gostei. Você gostou Renata?

RENATA – Eu gostei, mas eu queria saber uma coisa: Por que Jesus deixou se pregar na cruz se tinha tanto poder? Poderia ter se livrado da morte.

GLÓRIA – Quer mesmo saber o porquê?

RENATA – eu quero.

GLÓRIA - Então eu espero vocês na igreja domingo as nove horas. Lá vocês conhecerão várias histórias de Jesus e por que ele morreu. Combinado? Posso esperar vocês.

PAULO – E a gente pode ir assim? Nós nem somos crentes.

GLÓRIA – Claro. Fala com a mamãe e o papai que eu vou esperar por vocês.

PAULO – Está bem. Se eles deixarem a gente vai.

GLÓRIA – E eu vou falar com Deus para ajudar seu irmão. Como é o nome dele?

PAULO – Henrique.

GLÓRIA TOMA NOTA.

GLÓRIA – Já anotei. Agora eu tenho que ir.

RENATA – tchau Glória.

GLÓRIA – Tchau e vão com Deus.

ATO 09


NELZA ESTARÁ PASSANDO ROUPA E CHORA AO LEMBRAR-SE DE HENRIQUE.

PAULO e RENATA – (VOLTANDO DA RUA) – manhêêê, manhêêê!

PAULO PERCEBE QUE SUA MÃE ESTÁ CHORANDO.

PAULO – Está chorando, mãe?.. o que houve?

RENATA – É por causa do Rick, mãe?

PAULO – não chora, mãe, o Rick vai sair dessa.

NELZA ENXUGA OS OLHOS

RENATA – A senhora acredita em Deus, mãe?

NELZA – Claro que acredito, minha filha.

RENATA – A professora do Paulo falou que Jesus ajuda as pessoas. Ela disse que ele curou cegos, aleijados e até morto ele fez viver de novo.

PAULO – Ela disse que vai rezar pelo Rick. Ela até anotou o nome dele. Eu acredito que Deus vai ajuda-lo.

RENATA – mãe, a senhora já rezou alguma vez?

NELZA – já sim. Eu já rezei.

RENATA – eu nunca rezei eu queria saber rezar...só pra pedir a Deus para trazer o Rick de volta pra casa.

PAULO – A senhora deixa a Renata e eu irmos na igreja da glória, domingo?

NELZA – se vocês levantarem cedo e arrumar a casa em tempo, podem ir.

RENATA – (EUFÓRICA) – Oba!!!

PAULO – (ANIMADO) – nós vamos arrumar a casa toda.

NELZA – Agora vão procurar o que fazer. Me deixem trabalhar.

RENATA – vou pedir a Glória pra me ensinar a rezar.

AS CRIANÇAS SAEM.

ATO 10

NO DOMINGO...CENÁRIO DA CASA.

ALTAIR, NELZA E MARINA ESTARÃO NA SALA. ENTRA ADRIANA CORRENDO E CHORANDO.

ADRIANA – mamãe, e Paulo e a Renata vão a igreja e não querem me levar.

MARINA – (PEGANDO A FILHA NO COLO) – Não querem, não, meu amor.

ADRIANA – Não. Eu quero ir na igreja também.

MARINA - Pare de chorar. Mamãe vai dar um jeito nisso.

PAULO E RENATA ENTRAM NA SALA ARRUMADOS PARA SAIREM.

PAULO – mãe, arrumamos tudo.já vamos.

MARINA – Leva a Adriana com vocês, também, Paulo.

PAULO – Ah, Marina, ela é muito criança.

MARINA – Veja quem fala... você é adulto por acaso?

RENATA – Ela vai ficar chorando para vir embora.

ADRIANA – Não choro, não.

ALTAIR – Leva ela ou vão ficar todos em casa.

PAULO – ta bom sua chorona, vamos logo. (PEGA ADRIANA PELA MÃO). Enxuga esta cara.

AS CRIANÇAS SAEM E APÓS ALGUNS MINUTOS PATEM PALMAS DO LADO DE FORA. MARINA OLHA PARA FORA..

ALTAIR – quem é, Marina?

MARINA- são dois homens.

ALTAIR RECEBE- OS.

POLICIAL 1 – bom dia. O senhor é Altair Vieira?

ALTAIR – Sim. Sou eu.

POLICIAL 1 – pai de Henrique Vieira?

ALTAIR – sim. Sou pai dele.

POLICIAL 1 – Sou Rodrigues e este (APRESENTA O COLEGA) É Sampaio. Somos policiais.

ALTAIR – muito prazer... mas no que eu posso ajudar a polícia?

POLICIAL 2 – estamos aqui para te falar sobre seu filho Henrique.

ALTAIR – Henrique decidiu que não quer ser mais meu filho.

POLICIAL 1 – a justiça não pensa assim, seu Altair. Sabe com o que seu filho está se envolvendo?

ALTAIR ABAIXA A CABEÇA SEM DAR RESPOSTA, ENVERGONHANDO.

POLICIAL 2 – pois é... Ele é de menor. Querendo ou não, o senhor é responsável por ele.

ALTAIR – E o que eu posso fazer se ele decidiu que quer levar esta vida?

POLICIAL2 – Não se preocupe, vamos tentar ajuda. Seu filho só está experimentando. Ainda não é um viciado. Ainda tem solução para ele.

ALTAIR – e onde ele está agora? Eu não sei.

POLICIAL 1- Venha conosco. Nós o levaremos até ele.

ALTAIR – Claro, claro, vamos agora. Deixa eu pegar minha carteira.

ALTAIR SAI.

POLICIAL 1 – (PARA NELZA) Como é o relacionamento de Henrique com o pai?

NELZA – não muito bom.

POLICIAL 2 – O Henrique vai precisar muito da ajuda de vocês.

ALTAIR VOLTA PARA A SALA.

ALTAIR - estou pronto. Podemos ir.

NELZA – Altair, tenha paciência com nosso filho.

POLICIAL 1 – não se preocupe, senhora. Daqui a pouco seu filho estará em casa. Até logo e passar bem.

NELZA – Até logo e muito obrigada.

SAEM E ENCERRA O ATO.

ATO 11

ABRE AS CORTINAS. MARINA ARRUMA A CASA. ORGANIZA AS CADEIRAS, DOBRA ROUPASQUE ESTÃO SOBRE A MESA. LEVA AS ROUPAS PARA O QUARTO E RETORNA E CONTINUA A ARRUMAÇÃO. (obs) DURAÇÃO DE MAIS OU MENOS 3 MINUTOS.
RENATA E ADRIANA VOLTAM DA IGREJA.

ADRIANA – mamãe, mamãe, quer ouvir a música que eu aprendi?

ADRIANA CONTA O CORINHO “EU VOU CRESCER” E Renata ajuda.

MARINA – que bonito, minha filha, quem te ensinou?

ADRIANA – a tia Glória e eu não chorei.

MARINA – eu sei que você não chorou. Minha filha já é uma mocinha.

ADRIANA – domingo você deixa eu ir de novo? Deixa?

MARINA – deixo (PARA RENATA) cadê o Paulo, Renata?

RENATA – ficou.

MARINA – ficou fazendo o quê?

RENATA – aonde está a mamãe?

MARINA – lá dentro. Mas o que o Paulo ficou fazendo lá?

RENATA – diz ele que vai aprender a tocar violão.

MARINA – violão?

RENATA – É. Lá na igreja tem aula.Vou falar pro papai que ele ficou.

MARINA – Ele não está. Só mamãe.

RENATA – aonde ele foi?

MARINA – buscar o Rick.

RENATA – o quê? O Rick vai voltar pra casa? Puxa vida Deus me atendeu tão depressa. Acabei de pedir isso na igreja...

RENATA SAI DA SALA TODA FELIZ.

MARINA – (PEGANDO ADRIANA NO COLO) agora é hora de papá.

ADRIANA – não quero. Não to com fome.

MARINA – vai sim, vai papá tudinho.

ENQUANTO MARINA E ADRIANA SAEM, CRUZAM COM NELZA E RENATA QUE ENTRAM NA SALA.

RENATA – mãe a senhora precisa ver que igreja legal. Tia Glória ensina a gente a cantar. Conta histórias de Jesus, faz brincadeiras. É muito legal mesmo.

NELZA – E seu irmão, demora muito a aula?

RENATA – acho que não. É verdade que o pai foi buscar o Rick, mãe?

NELZA – é verdade e eles estão demorando.

RENATA – Deus está me respondendo, mãe...

NELZA – Deus?

RENATA – É. Tia Glória pediu para nós oramos e pedirmos a Deus uma coisa que a gente gostaria que acontecesse. Eu pedi que o Rick voltasse.

NELZA – Espero que Deus não te decepcione. Pode ser que o Henrique aceite voltar com seu pai. Ele está muito rebelde e seu pai sem paciência.

ADRIANA ENTRA CORRENDO E GRITANDO, SEGUIDA POR MARINA.

ADRIANA – Vovó, vovó, o vovô está trazendo o tio Rick.

PAI E FILHO ENTRAM NA SALA. NELZA VAI ABRAÇAR O FILHO.

NELZA – o meu filho quando é que você vai tomar juízo?

HENRIQUE DEIXA SE ABRAÇAR SEM CORRESPONDER.

NELZA – o que você anda fazendo, meu filho? Você está bem? Está com fome?

HENRIQUE – Eu estou bem, mãe. Não quero comer. Vou pro quarto.

SAI DA SALA.

ALTAIR – Ele ainda está sobre efeito de remédios. O médico falou que ele chegou quase morto no hospital.

NELZA – Oh meu Deus, é muito difícil ver um filho nessas condições!

PAULO VOLTA DA IGREJA TODO FELIZ.

PAULO – Atenção família... tenho uma novidade para mostrar... papai, onde está aquele seu velho violão?

RENATA – o Rick voltou pra casa, Paulo.

PAULO – Eu sabia que ele ia voltar. Pedi isso pra Deus. (VOLTANDO PARA O PAI) pai, me empresta seu violão. Eu estou aprendendo a tocar lá na igreja da minha professora Glória.

ALTAIR – você? Pode ser que aprende. Eu tentei tanto tempo e não consegui.

PAULO – pois eu vou consegui. Já sei fazer três posições..

ALTAIR – Então pega o violão. Quero ver você tocar.

MARINA – iihh, se este menino antes não gostava de trabalhar, agora é que ele não faz mais nada.

ALTAIR – Deixa seu irmão em paz. Ele ainda é muito novo. Tem muito tempo pra ele trabalhar.

MARINA – é, mas é de pequeno mesmo é que se aprende. Comecei fazendo faxina com 12 anos e com 16 tive que meter a cara no trabalho de verdade.

ALTAIR – É claro. Não quis estudar e arrumou uma filha.

MARINA – Ah não, pai, não começa...

ALTAIR – Agora você sabe porque que eu não te deixava namorar aquele malandrinho. Eu sabia que ia dar nisso.

MARINA – chega, pai. O quê que o Senhor quer que eu faça? A minha filha existe. Não posso negar isso. Não tenho culpa se o pai dela não vale nada.

ALTAIR – eu bem que te avisei.

MARINA – O senhor quer que eu diga que eu estava errada? Ta bom... eu estava errada... o senhor estava certo, mas chega... pare de me recriminar.

NELZA – este assunto outra vez? Gente pára. Olha a menina escutando tudo.

PAULO VOLTA COM O VIOLÃO FAZENDO CESSAR A DISCUSSÃO.

PAULO – agora vocês vão ver que grande tocador eu ainda vou ser.(SENTA E COMEÇA A TOCAR AS TRÊS POSIÇÕES QUEAPRENDEU).

ALTAIR – muito bem, meu filho. Se aprender mesmo, o violão é seu.

PAULO – sério, pai?

ALTAIR – se aprender, é seu.

PAULO – (PERGUNTA ENTUSIASMADO) – o senhor acha que to tocando bem?

ALTAIR – Bom... continue indo às aulas.

PAULO – então domingo eu posso voltar?

ALTAIR – pode, é claro.

NELZA – Mas só vai se a casa ficar arrumada.

PAULO – Eu arrumo, mãe. E agora vou tocar pro Rick.(SAI)

RENATA – Eu também posso ir à igreja, pai?

ALTAIR – Pode. E pede a Deus pra se lembrar de nós. Porque do jeito que está, parece que o inferno está dominando esta casa. São tantos problemas...

RENATA – Eu peço, pai. Agora eu aprendi a orar. Basta falar com Deus o que eu quero como estou falando com o senhor.

ALTAIR – vou dar uma saída.

MARINA – Renata pode tratar de arrumar o cozinha do almoço mais o Paulo. Eu não vou arrumar, não.

ATO 12

PAULO ENTRA NO QUARTO COM O VIOLÃO ONDE HENRIQUE ESTÁ COMO OLHAR PARADO, OLHANDO PARA O NADA.

PAULO – fala aí, Rick. Que bom que voltou, cara.

HENRIQUE NÃO FAZ CONTA DE SUA PRESENÇA.

PAULO – mamãe está muito feliz.

HENRIQUE CONTINUA CALADO.

PAULO – você está bem?

HENRIQUE (SE LAMENTANDO) estou... Fracassado... Um lixo... Eu quero ficar sozinho. Sai daqui.

PAULO – ninguém pode ficar sozinho. Ninguém é uma ilha.

HENRIQUE – o que é isso? Virou filósofo?

PAULO – aprendi com meu professor.

HENRIQUE – e o que este professor entende da vida?

HENRIQUE – você entende muita coisa?

HENRIQUE – Está muito esperto pra sua idade.

PAULO – se não se lembra, tenho quase doze.

HENRIQUE – falou crâneo. E o que faz com este violão? Virou cantor?

PAULO – estou aprendendo.

HENRIQUE – então vai... leva um rock aí.

PAULO – não estou aprendendo isso. To aprendendo hino de igreja.

HENRIQUE – ué! Virou crente?

PAULO – fui à igreja hoje. Foi legal, cara. Você precisa ir um dia.

HENRIQUE – pra quê? Eu já sei o que vão dizer. A igreja não tem nada pra me ensinar. O mundo aqui fora é diferente.

PAULO – pois eu aprendi muita coisa boa.

HENRIQUE – já sei... que o homem é pecador e que vai direto pro inferno. Já me falaram isso.

PAULO – é, mas Jesus salva o pecador. Eu não quero morrer e ir pro inferno.

HENRIQUE – é isso aí, maninho. Muda mesmo. Você ainda tem chance.

PAULO – você também, Rick.

HENRIQUE – já estou no inferno e o capeta ainda zomba de mim.

PAULO – queria que conhecesse a Glória. Ela sabe tanta coisa sobre Deus. Vamos a igreja domingo.

HENRIQUE – nem pensar.

PAULO – ela pode te ajudar.

HENRIQUE – já disse, eu não quero.

PAULO – então eu peço pra ela vir aqui.

HENRIQUE – não, Paulo (GRITANTO) já falei que não. (NERVOSO) que droga, garoto, sai daqui... sai daqui.

PAULO – tudo bem eu vou sair. Vou te deixar no seu inferno. Parece que está satisfeito dentro dele.

NELZA – (ENTRANDO) – que é isto? Que gritaria é esta?

HENRIQUE – sai daqui você também.

NELZA – (SURPRESA) meu filho, você nunca falou assim com sua mãe.

HENRIQUE – Estou falando agora. Me deixa... esquece que eu existo.

SILÊNCIO... HENRIQUE ESCONDE O ROSTO ENTRE AS MÃOS E COMEÇA A CHORAR... NELZA TENTA ACARICIAR SEUS CABELOS NUM JESTO DE CARINHO.

HENRIQUE – Não! (EMPURRA A MÃO DA MÃE) não. Quero que saia daqui. Agora.

NELZA E PAULO SAEM DEIXANDO HENRIQUE SOZINHO E CHORANDO.

ATO 13

NELZA ESTARÁ NA SALA PASSANDO ROUPAS, RENATA E ADRIANA BRINCANDO, PAULO TOCANDO VIOLÃO E HENRIQUE SENTADO UM POUCO AFASTADO DE TODOS. ENTRA ANDRÉ. Obs: ANDRÉ É HOMOSEXUAL.

ANDRÉ – Alô meninos e meninas como passaram o dia sem a minha companhia? O meu foi cans-sa-dis-si-mo. Todo o meu corpo dói. Nunca vi tanta mulher chata e fresca como as que estiveram hoje no salão. E o papi? Ainda não chegou mami?

NELZA – Ainda não. Estou começando a ficar preocupada com ele.

ANDRÉ – Ah meu Deus! Não precisa mami. Ele sempre volta pra você... E Marina?

NELZA – preparando o jantar.

ANDRÉ – Que bom. Tomara que não demore.. estou morrendo de fome.(OLHA PARA HENRIQUE) Rick está a fim de trabalhar?

HENRIQUE – não

ANDRÉ – comigo...

HENRIQUE - Não

ANDRÉ – precisamos de ajuda lá no salão.

HENRIQUE – Não estou interessado.

ANDRÉ – Ai credo, que menino azedo. Vou tomar minha ducha. Se mudar de idéia, me procure.

ANDRÉ SAI E
PAULO CONTINUA TOCANDO. ALTAIR CHEGA COMPLETAMENTE BÊBADO.

ALTAIR – (CANTANDO) “perguntaram pra mim se ainda gosto dela... respondi tem ódio...”

ADRIANA – vovô...(CORRE E ABRAÇA AS PERNAS DO AVÔ, QUE QUASE CAI.)

ALTAIR – oi pequena vovô hoje está muito feliz...

ADRIANA – Você trouxe bala?

ALTAIR – bala? O vovô não tem bala. Mas eu dou dinheiro pra você ir comprar mais a Renata.

NELZA – hoje ninguém vai pra rua. Guarda o dinheiro e compra manhã.

ALTAIR – o quê que tem, Nelza... a menina quer bala.

NELZA – e você acha que isso são que horas?

ALTAIR – é cedo...

NELZA – cedo? Marina e o André já chegaram a muito tempo.

ALTAIR – é claro que é cedo. (APONTA COMO SE INDICASSE A RUA) Olha quanta gente na rua.

NELZA – Gente desocupadas... igual a você.

ALTAIR – eu tava trabalhando... não sou você.

NELZA – É eu fiquei em casa o dia todo vadiando. Não está vendo? (APONTA PARA UM MONTE DE ROUPA SOBRE A MESA).

ALTAIR – só porquê eu tomei uma cervejinha?

NELZA – você bebeu um alambique.

HENRIQUE LEVANTA E SAI DA SALA.

NELZA – eu não sei quando é que vai tomar juízo... um homem velho desse.

ALTAIR – velha é você.

NELZA – só tenho que ficar velha. O tempo todo no tanque, você quer o quê?

ALTAIR – Ah! Não quero discutir com você. (VAI SAINDO).

NELZA – você sabe que tenho razão.

ALTAIR – (SAI CANTANDO) – Entre tapas e beijos...

FAZ-SE UM SILÊNCIO E DE REPENTE COMEÇA SE OUVIR OS GRITOS DE ALTAIR E HENRIQUE NO QUARTO.

ALTAIR – o que é isso, Henrique?

HENRIQUE – (GRITANDO) – não me amola.

ALTAIR – o que é isso em sua mão?

HENRIQUE – não é da sua conta...

ALTAIR – me dá isso...me dá isso, Henrique.

HENRIQUE VAI PARA SALA, SEGUIDO PELO PAI. COM UM “BASIADO” ACESO.

HENRIQUE – não se meta com a minha vida...

NELZA – Henrique, o que é isto?

ALTAIR INDO PARA CIMA DE HENRIQUE.

ALTAIR – seu marginal... me dá isto aqui.

HENRIQUE – fique longe de mim.

ALTAIR SE ATRACA COM ELE.

ALTAIR – já mandei me entregar isto. Você não vai se drogar na minha casa.

PAULO – (PÁRA DE TOCAR) – Por favor, Rick, dá isso pro papai.

ALTAIR (DANDO UM ARRANCO EM SUA MÃO, TOMA O BASIADO, JOGANDO NO CHÃO E PISA POR CIMA).

HENRIQUE – (EMPURRANDO O PAI, QUE CAI NO CHÃO) não toque em mim.

ALTAIR – (SE LEVANTANDO) – oras seu marginal (INDO PARA CIMA DO FILHO) – agora eu acabo com você.

NELZA – (ENTRA NO MEIO) – pelo amor de Deus, Altair, pare com isto.

HENRIQUE – assassino!

NELZA – (BRAVA) – isto não é jeito de falar com seu pai, Rick.

HENRIQUE – (VAI CAMINHANDO PARA O QUARTO) – assassino, sim,assassino. Matou minha irmã, sua própria filha. AS-SAS-SI-NO.

ALTAIR – sua irmã estava doente.

HENRIQUE – Você matou Jeruza e agora quer me matar também, mas você não vai conseguir. Por que eu te mato antes. Assassino. Eu te odeio (VAI PARA O QUARTO).

NARRADOR – (AO MICROFONE) – E assim caminha a humanidade.

ATO 14

ABRE AS CORTINAS COM HENRIQUE NA SALA. ENTRA PAULO COM O VIOLÃO.

PAULO – Rick.

HENRIQUE – oi

PAULO – onde está o pessoal?

HENRIQUE – por aí.

PAULO SENTA E COMEÇA A TOCAR O VIOLÃO.

PAULO – Rick, vamos a igreja comigo? Tem festa.

HENRIQUE – Paulo, gostei de saber que você e a Renata vão a igreja. Estão se interessando por estas coisas. Nesta casa vocês são os únicos que parecem que tem a cabeça no lugar. Vá em frente, mas vê se não me enche com esta história.

PAULO – todo esse discurso pra dizer não?

HENRIQUE – você sabe o que eu penso em relação a igreja. Eu não gosto de crentes. Eu detesto aquele ar de superioridade deles.

PAULO – acho impossível que seja feliz com a vida que leva.
HENRIQUE – pois sou...

PAULO – Dá uma chance pra Deus provar que você está errado.

HENRIQUE – já chega, Paulo. Eu não quero mais falar sobre isso.

PAULO – cristo te ama, Rick.

HENRIQUE – (GRITANDO) – Deus é um egoísta. Se ele me amasse mesmo acha que eu teria esta vida? Ele só ama as pessoas boas. Eu não faço parte desta lista.

PAULO – mas você pode fazer, Rick. Deixa eu trazer a Glória aqui pra conversar com você?

HENRIQUE – Já disse que não. Quem é essa Glória, afinal?

PAULO – Glória é alguém que pode te ajudar. Ela me ajudou.

HENRIQUE (SE ACALMA E OLHA PARA O IRMÃO COM TERNURA) – você sempre foi um bom menino. Eu não.

PAULO – Você está enganado Rick. Alguém que ama uma irmã da forma que você amava Jeruza tem que ser uma pessoa muito boa.

HENRIQUE – Sou um filho que faz a mãe chorar, que não fala com o pai e envergonhei toda a minha família.

PAULO – você é um filho muito amado e querido por toda sua família.

HENRIQUE – você merece o céu, Paulo (VAI SAINDO).

PAULO – Rick...

HENRIQUE OLHA PARA O IRMÃO.
PAULO – deixa eu trazer a Glória a qui?

HENRIQUE – talvez um dia...

HENRIQUE SAI DA SALA E HENRIQUE VOLTA ATOCAR.

ATO 15

ABRE-SE AS CORTINAS, NELZA ESTÁRÁ PASSANDO REOUPAS. MARINA CHEGA DO TRABALHO.

MARINA – nossa, mãe. Que casa quieta. Cadê todo mundo?

NELZA – Seu pai chegou e já saiu, o André ainda não chegou e as crianças estão na igreja.

MARINA – Adriana foi também?

NELZA – foi. Se não levasse ela abria o berreiro.

MARINA – Já reparou, mãe como eles mudaram desde que começaram a ir para a igreja?

NELZA – É! Eu gosto que eles vão a igreja. Pelo menos lá eles aprendem alguma coisa que presta.

MARINA – o Paulo parece outro... não briga, não xinga, não agride ninguém dentro de casa.

NELZA – faz tudo que eu mando... e sem reclamar.

MARINA – Adriana desde que começou a ir a igreja, não tem mais pesadelos. Dorme quietinha a noite toda.
NELZA – o Paulo vive me chamando pra ir com eles.

MARINA –
Ele me chamou também, mas eu chego tão tarde do serviço e no domingo estou tão cansada que não tenho vontade de sair.

NELZA – E eu que até domingo estou aqui? Lavando, passando...Tem dia que me dá vontade deixar isto tudo, cruzar os braços e não me preocupar com nada.

ANDRÉ – (ENTRANDO) – olá. Falando de quem? (BEIJA A MÃE)

MARINA – de ninguém. Estamos comentando sobre os meninos.

ANDRÉ - o que tem eles?

MARINA – eles mudaram desde que começaram a ir na igreja.

ANDRÉ – isto é bom. Que eles continuem, já que fizeram progresso. Rick também ta igreja?

NELZA – esse? Não chega nem a cara do lado ded fora. Está trancado no quarto.

ANDRE – vou falar com ele. E o jantar? Estou morrendo de fome...

NELZA – está pronto.

ANDRÉ – E o papai ainda não chegou?

NELZA – chegou, jantou e saiu.

ANDRÉ – então daqui a pouco ele volta daquele jeito. Vou tomar banho e sair. Não quero ta aqui quando ele chegar.

ANDRÉ SAI DA SALA.

MARINA – o pai já pagou o Joãozinho mãe?

NELZA – sair com o dinheiro, ele saiu. Se não jogar e beber tudo...
MARINA – se não pagar é porque não quer.
Eu dei a ele o dinheiro e ele já recebeu.

NELZA – o André também deu. Se ele não pagar vamos ficar sem fazer compra. O resto do arroz eu fiz pra janta. Amanhã cedo não tem pó de café. Tenho um dinheiro comigo, mas é pra comprar o uniforme dos meninos. Eles estão indo muito mal arrumado pra escola.

MARINA – É. O ano que vem vou ter que me preocupara com a Adriana também.

ENCERRA O ATO.

ATO 16


ABRE AS CORTINAS, HENRIQUE ESTÁ SENTADO, SOZINHO, OLHANDO PARA O NADA. BATEM PALMAS... HENRIQUE NÃO SE LEVANTA DE IMEDIATO... NOVAMENTE SE OUVE AS PALMAS. HENRIQUE VAI ATENDER. GLÓRIA E GISELE INICIAM AS FALAS.

GLÓRIA – boa tarde. É aqui que moram Paulo e Renata?

HENRIQUE – é sim.

GLÓRIA – (SE APRESENTANDO) – eu sou glória e esta é Gisele. Nós somos da igreja que eles freqüentam.

HENRIQUE – fiquem a vontade.

GLÓRIA – obrigada. Eles estão?

HENRIQUE – acho que vocês perderam a viagem. Eles saíram com a mamãe e os outros estão no trabalho. Só eu estou em casa.

GISELE – você deve ser o Henrique.

HENRIQUE – isto mesmo.

GLÓRIA – Ah! É você que é o Henrique. Paulo fala muito sobre você.

HENRIQUE – É parece que a minha vida é fazer as pessoas se preocuparem comigo.

GLÓRIA – As vezes sem querer magoamos as pessoas que amamos.
HENRIQUE FICA CALADO.

GLÓRIA – Tem alguma coisa que te incomoda, Henrique?

HENRIQUE – foi o Paulo que te mandou vir aqui?

GLÒRIA – Não. Claro que não.

GISELE – viemos aqui porque o Paulo e Renata estão freqüentando nossa igreja. Queremos saber a opinião se seus pais.

HENRIQUE – eles estão gostando.

GLÓRIA – e você? Quando vai nos fazer uma visita?

HENRIQUE – não sei... talvez um dia... vou colocar minha vida em ordem primeiro.

GLÓRIA – Pode deixar Cristo te ajudar nesta tarefa.

HENRIQUE – Não. Ele tem outras coisas mais importantes com o quê se preocupar.

GLÓRIA – sabia que você é algo importante para ele também?

HENRIQUE – você diz isto porque não conhece a minha vida.

GLÓRIA – sei o bastante; que Jesus te ama.

HENRIQUE – no coração de Deus não há lugar para viciado.

GLÓRIA – tem toda razão. É por isso que ele liberta do vício.

HENRIQUE - e também não suporto meu pai.

GLÓRIA – Deus é amor. Ele te ensina a amá-lo.

HENRIQUE – (COM VOZ ALTERADA) – Eu não quero amar meu pai.

GLÓRIA – o que aconteceu que te fez odiar tanto o seu pai?

HENRIQUE – isso não importa mais.

GLÓRIA – pra mim, talvez não. Pra você sim.

HENRIQUE – Paulo te admira muito.

GLÓRIA – Paulo é uma criança maravilhosa.

HENRIQUE – É que você não o conheceu fora da igreja.

GLÓRIA – Quando se decide viver com Cristo, a vida passada não importa. Pra Deus você nasce de novo. O próprio Deus te dá uma nova vida.

HENRIQUE – isso parece conto de fadas.

GLÓRIA – E neste conto? Você quer ser príncipe ou um sapo?

GISELE – seu pai já te bateu alguma vez, Henrique.

HENRIQUE – Alguma? Foram tantas que até já perdi a conta. Mas não é por isso que eu o odeio.

GLÓRIA – E ele sabe a razão de seu ódio por ele?

HENRIQUE – sabe, mas não se incomoda.

FAZ-SE UM SILÊNCIO E HENRIQUE CONTINUA.

HENRIQUE – meu pai é um assassino. Ele matou minha irmã.

GLÓRIA – e como foi isso?

HENRIQUE – ele bateu nela.

GLÓRIA – até mata-la?

HENRIQUE – não. Demorou dois dias pra ela morrer.

GISELE – E por que seu pai bateu tanto nela?

HENRIQUE – sumiu um dinheiro da carteira dele. Pra ele foi Jeruza que pegou. Mas não foi.

GLÓRIA – Como é que você tem certeza que não foi ela?

HENRIQUE – porque fui eu que peguei.

GLÓRIA – certo. E dai?

HENRIQUE – daí ele começou a bater nela. Eu não podia falar a verdade, senão ele me batia também.Ele bateu tanto nela que ela não foi capaz de se levantar. No outro dia parecia estar bem. Ainda foi para a escola. Só que naquela noite ela começou a passar mal. Acordei com mamãe e papai levando ela para o hospital. Ela morreu no caminho. Ela era incrível. Super inteligente. Só tirava notas boas, era a primeira em tudo.

GLÓRIA – e o médico falou que ela morreu devido a surra?

HENRIQUE – ele disse que foi derrame cerebral. Nossa vizinha falou que pode ser que papai tenha batido a cabeça dela na parede.

GLÓRIA – É. Pode ser. Mas já pensou que a morte dela não tenha nada a ver com a surra?

HENRIQUE – ele é culpado sim.

GLÓRIA – era hora dela, Henrique. Deus a chamou. Seu pai não foi o responsável pela morte dela.

HENRIQUE – Ele bateu muito nela.

GLÓRIA – vamos supor que você dissesse a verdade ao seu pai. Quem teria levado a surra é você. Acredita mesmo que sua irmã estaria viva e você morto?

HENRIQUE PENSA POR ALGUNS INSTANTES E RESPONDE ASPERAMENTE.

HENRIQUE – quer dizer que eu sou o culpado pela morte dela?

GLÓRIA – de modo algum, Henrique. Quero que entenda que seu pai não matou sua irmã. Sei que é difícil perder alguém que muito amamos e admiramos. Mas você precisa superar e continuar a sua vida.

FAZ-SE OUTRO SILÊNCIO. GLÓRIA CONTINUA.

GLÓRIA – não fuja de sua vida, Henrique. Não se esconda atrás de nada. Principalmente de algo que te prejudica como é o caso da droga.

HENRIQUE – pra dizer a verdade, eu quero parar.

GLÓRIA – então não use mais.

HENRIQUE – É mais forte do que eu.

GLÓRIA – você quer realmente abandonar este vício pra sempre?

HENRIQUE – Eu quero.

GLÓRIA – acredita que Deus pode te ajudar?

HENRIQUE – eu quero acreditar.

GLÓRIA – então vai conseguir. Aliás: já conseguiu.

HENNRIQUE – como?

GLÓRIA – todas as vezes que for usar a droga, pense em Deus com toda força do seu coração.
Peça a ele que controle sua vontade, sua vida. Diga a Deus que não quer mais isso pra você. E o resto deixe por conta do Senhor. (COLOCA A MÃO SOBRE A CABEÇA DE HENRIQUE) E neste momento eu quero declarar que Jesus é o Senhor de sua vida.É o senhor desta casa. Acredita nisto Henrique?

HERIQUE – Claro...claro...Eu acredito sim.

GLÓRIA – precisamos ir. Nós vamos, mas Cristo fica com você. Quero te convidar para sair com a mocidade amanhã. Vamos?

HENRIQUE – eu não sei...

GLÓRIA – vai ser muito bom. Vai ter a oportunidade de conhecer vários jovens.

GISELE – E se distrai também. Você não deve ficar só.

GLÓRIA – já tem Cristo como seu melhor amigo. Agora conquiste outros.

HENRIQUE – vai ser a noite?

GISELE – É. Se quiser passo aqui e vamos juntos. O ponto de ônibus é qui perto mesmo.

GLÓRIA – parece que já tem companhia, Henrique...

HENRIQUE – bom...

GLÓRIA – se não gostar, pode me dizer depois.

HENRIQUE – está bem. Eu vou. Você vem mesmo Gisele?

GISELE – venho. Pode me esperar.

GLÓRIA – ótimo. Agora temos que ir. Então, Henrique, até amanhã.

HENRIQUE – foi bom conversar com vocês. Tchau.

AS DUAS SAEM. ENCERRA O ATO.

ATO 17

ABRE AS CORTINAS COM TODOS NA SALA. MENOS AS CRIANÇAS E O HENRIQUE.

HENRIQUE – (ENTRANDO NA SALA) – André, me empresta dez reais?

ANDRÉ – pra quê?

HENRIQUE – quero dar uma saída.

MARINA – emprestar ou dar? Você não vai pagar mesmo.

HENRIQUE – acho que pedi ao André.

ANDRÉ – Já pensou na proposta que te fiz de ir trabalhar no salão comigo?

HENRIQUE – tudo bem André, se não quer emprestar, não empresta.(vai saindo).

NELZA – meu filho você quer pra quê? Eu te dou o dinheiro.

MARINA – aproveita, Rick. Nesta casa é só você que não trabalha e tem dinheiro quando quer.

HENRIQUE – (FALANDO COM A MÃE) as meninas da igreja vieram aqui ontem. Não te falei?

NELZA – sim, você falou.

HENRIQUE – então? Elas me chamaram para sair com elas. Gisele vai passar aqui. Já estudei com ela. Ela ficou tão diferente.

MARINA – (SARCÁSTICA) – já vi tudo...

NELZA – cale a boca Marina. Que menina que fala. (PARA O HENRIQUE) – vai sim, meu filho, eu te dou o dinheiro.

AS CRIANÇAS ENTRAM NA SALA.

MARINA – pelo jeito teremos mais um crente na família.

PAULO – bom seria se toda família fosse.

HENRIQUE – viu Gisele hoje, Paulo?

PAULO – vi sim. Ela vai passar aqui.

MARINA – não sei, não, Rick está muito interessado em ir na igreja. Pelo menos essa Gisele é bonita? Não quero cunhada feia não, hem.

PAULO – ela é uma gracinha.

MARINA – (PARA PAULO) cuidado irmão. Você esta pecando.

NELZA – Marina vai procurar o que fazer.

MARINA – Rick, se deixar escapar pode não achar outra. É difícil encontrar alguém que goste de coisa feia.

HERINQUE - é por isso que você está encalhada até hoje.

ALTAIR – Vou dar uma volta.

NELZA – vai encher a cara de novo?

ALTAIR – você fala como se eu fosse um alcoólatra. (SAI).

ANDRÉ – estive com Denise ontem, mamãe.

NELZA – É. Fala com aquela sem juízo que ela ainda tem mãe, aqui.

ANDRÉ – a senhora sabe porque ela não vem.

NELZA – É eu sei.

ANDRÉ SAI TAMBÉM E ENCERRA O ATO.

ATO 18

ABRE AS CORTINAS, ENTRAM HENRIQUE E GISELE.

GISELE – bom chegamos. Te devolvo são e salvo.

HENRIQUE – não deveria ser o contrário? Eu te levar em casa?

Vim te buscar. É justo te trazer.

HENRIQUE – Ta legal. Se você acha assim.

GISELE – além do mais o pessoal ta me esperando.

HENRIQUE – ta certo.

GISELE – quando puder, vai nos fazer uma visita na igreja.

HENRIQUE – Só vou se vier me buscar.

GISELE – ta ficando mal acostumado.

HENRIQUE – gostei da companhia.

GISELE – preciso ir.

HENRIQUE – tem certeza que não quer que eu leve? Eu te levo... Depois você me trás...

GISELE – estou muito cansada pra esta odisséia. Boa noite, Henrique (ESTENDE A MÃO).

HENRIQUE – (PEGANDO SUA MÃO) – boa noite (DÁ-LHE 3 BEIJINHOS NO ROSTO).

GISELE SAI. ENCERRA O ATO.

ATO 19

ABRE AS CORTINAS COM ALTAIR, NELZA E MARINA NA SALA. FAZEM QUALQUER COISA.

ADRIANA – (ENTRA CHORANDO) – mamãe, eu não acho minha sandália. Eu quero ir na igreja.

PAULO E RENATA ENTRAM.

MARINA – você vai. Vem comigo. Vou achar sua sandália.

SAEM, CRUZANDO COM HENRIQUE.

HENRIQUE – Me espera, Paulo. Vou com vocês.

PAULO – Temos que esperar. A Adriana perdeu a sandália.

HENRIQUE – será que Gisele vai a igreja?

PAULO – ela nunca falta.

MARINA E ADRIANA VOLTAM.

MARINA – pronto minha filha está linda.

PAULO – então vamos que estamos atrasados.

AS CRIANÇAS SAEM.

ALTAIR – vou sair pra resolver um problema.

NELZA – vê se vem almoçar em casa.

ALTAIR – não demoro.

ENCERRA O ATO.

ATO 20

ABRE AS CORTINAS COM NELZA E HENRIQUE NA SALA. NELZA PASSANDO ROUPAS E HENRIQUE LENDO O N.T.

HENRIQUE – como pode, mãe, Judas conviveu com Jesus, aprendeu com ele e por causa de dinheiro ele o traiu. Mesmo sabendo que era inocente.

NELZA – Este é o retrato da humanidade, meu filho. Por dinheiro as pessoas são capazes de matar.

NESTE INSTANTE ENTRA ALTAIR NERVOSO E REVOLTADO.

NELZA – Altair, você aqui a esta hora? O que aconteceu?

ALTAIR – (NERVOSO) – fui demitido.

NELZA – Pó quê?

ALTAIR – Por quê? Por quê? Você acha que eles precisam de razão para colocar agente na rua?

NELZA – ah deixa pra lá (TENTANDO ACALMÁ-LO) – você arruma outro.

ALTAIR – arruma outro? E até lá? Vamos comer o quê?
Como vou sustentar (APONTA PARA HENRIQUE) esta raça de vagabundo?

HENRIQUE LEVANTA E SAI DA SALA

ALTAIR – vou sair e não espere por mim.

NELZA – aonde você vai? Não vai gastar o único dinheiro que recebeu.

ALTAIR – não se preocupe vou ajeitar a nossa vida.

ALTAIR SAI E NELZA SENTA NA CADEIRA, PREOCUPADA. ENCERRA O ATO.

ATO 21

ABRE AS CORTINAS. NINGUÉM EM CENA.HENRIQUE ENTRA COM UM SAQUINHO PLASTICO NA MÃO CONTENDO UMA ESPÉCIE DE DROGA. (PODE USAR TALCO OU POLVILHO). COLOCA O SAQUINHO SOBRE A MESA E FICA OLHANDO PARA ELE POR ALGUNS INSTANTES. DEPOIS COMEÇA A CAMINHAR DE UM LADO PARA OUTRO. PÁRA EM FRENTE À MESA... SE APROXIMA SEM TOCAR NO SAQUINHO. COLOCA O ROSTO ENTRE AS MÃOS EM ATITUDE DE DESESPERO. DEPOIS CORRENDO PEGA=O E COLOCAR UM POUCO NAS MÃOS.

HENRIQUE – meu Deus (DESESPERADO) meu Deus.

FECHA COM FORÇA A MÃO DO CONTEÚDO E OLHA PARA CIMA.

HENRIQUE – Jesus Cristo, me ajude!... Eu não quero depender disso. Não quero. O diabo não vai me derrotar. (ATIRA O CONTEÚDO DA MÃO NO CHÃO) Eu não quero droga nenhuma!

NELZA - (APAVORADA COM OS GRITOS DO FILHO) – o que é isto, Henrique?

NELZA FICA PERPLEXA QUANDO VÊ A DROGA NA MÃO DE HENRIQUE.

NELZA – eu não posso acreditar no que estou vendo. Rick.

HENRIQUE – Não é o que a senhora está pensando. Toma! (ESTENDE O SAQUINHO PARA A MÃE). Nunca mais quero vê isso. Nunca mais em nome de Deus.

HENRIQUE VIRAS AS COSTAS E VAI PARA SEU QUARTO. ASSIM QUE HENRIQUE SAI, ENTRA ALTAIR COMPLETAMENTE BÊBADO.

ALTAIR – (GRITANDO) – Nelza...Nelza...Já cheguei.

NELZA – é. Estou vendo.

ALTAIR – não começa. Não quero ouvir lição de moral.

NELZA – cadê o dinheiro?

ALTAIR – dinheiro? Você quer dinheiro?

TIRA DO BOLSO VÁRIOS CARTÕES DE LOTO E LOTERIA OU QUALQUER OUTRO TIPO DE JOGO.

ALTAIR – (BÊBADO) aqui está. Nós vamos ficar ricos.

NELZA – não acredito Altair, você jogou todo dinheiro?

ALTAIR – joguei não. Eu investi. Fiz um investimento. É diferente. Pode deixar, você nunca mais vai precisar chegar perto de um tanque.a partir de amanhã vamos ser milionários.

NELZA – você enlouqueceu de vez.

ALTAIR – enlouqueci o quê, mulé. Ta um passo de ficar rica e fica aí me censurando?
(JUNTA TODOS OS JOGOS) amanhã vou te dá todo dinheiro que quizer.

ALTAIR SAI DA SALA E NELZA FICA SOZINHA, DEMONSTRANDO UMA GRANDE PREOCUPAÇÃO. ENCERRA O ATO.

ATO 22

ABRE AS CORTINAS COM ALTAIR SENTADO NA CADEIRA ATRÁS DA MESA, DE CABEÇA BAIXA. NELZA ENTRA E ARRUMA QUALQUER COISA NO LUGAR. ALTAIR VAI LEVANTANDO A CABEÇA DEVAGAR E FALA.

ATAIR – o quê que eu fiz, Nelza? E agora, o que vamos fazer?

NELZA – o que ta feito, ta feito.

ALTAIR – o que vamos comer?

NELZA – fome não vamos passar. Um angu seco mata a fome.

ALTAIR – vamos viver de esmola?

NELZA – Ah, sei lá... André, Marina e eu... a gente se vira até conseguir emprego. Só espero que isto te sirva de lição.

ALTAIR – não começa, Nelza. Eu já estou me condenando.

NELZA – estou apenas te alertando.

ALTAIR – onde estão as crianças?

NELZA – na igreja

ALTAIR – coitados dos meus filhos... enquanto eu faço minhas burrices, eles estão na igreja. Será que eles lembram de rezar por mim?

NELZA – o Paulo é tão dedicado e estou tão feliz com o Rick. Também foi para igreja e disse que não quer mais saber de droga. Jogou tudo fora.

ALTAIR – É meus filhos estão consertando as suas vidas. Também tenho que consertar a minha.

NELZA – Marina e eu vamos à igreja domingo, fazer a vontade de Paulo

ALTAIR – ele me chamou também.

MARINA ENTRA NA SALA, INTERROMPENDO-OS.

MARINA – Ué! Eu pensei ter ouvido as crianças chegarem.

ALTAIR SE LEVANTA E COMEÇA A CAMINHAR PELA SALA.

NELZA – ainda não.

MARINA – me enganei.

NISTO CHEGA DENISE GRITANDO DO LADO DE FORA.

DENISE – cadê o pessoal desta casa?

NELZA – estamos aqui, Denise.

DENISE – (ENTRANDO) – pensei que não tivesse ninguém para me receb... (VÊ O PAI) A
Acho melhor voltar outro dia (VAI SAINDO).

ALTAIR – fica minha filha.

DENISE – (VOLTANDO) – como? Minha...filha?

ALTAIR – esta casa ainda é sua.

ANDRÉ TAMBÉM CHEGA E CUMPRIMENTA A TODOS.

DENISE – será que errei de endereço?

HÁ UM SILÊNCIO...

DENISE – Bem... ta certo... mas... e os meninos?

MARINA – na igreja.

DENISE – então é verdade que eles estão direto na igreja?

MARINA – e o mais interessante você não sabe...

DENISE – então me conta.

MARINA – o Rick...

DENISE – O quê? Não me diga que o rick é crente também?

MARINA – pode acreditar.

DENISE – puxa, as coisas mudaram mesmo. Primeiro sou recebida calorosamente. As crianças na igreja, o Rick também. Acho que Deus resolveu nos visitar.

OS MENINOS CHEGANDO DA IGREJA.

HENRIQUE – errou Denise. Deus não é mais visita. Ele mora aqui.

DENISE – é você mesmo Rick que ta me falando isso?

HENRIQUE – eu mesmo. Deus tem feito coisas maravilhosas por mim. É o mínimo que posso dizer dele. Vocês precisam ir a igreja qualquer dia.

MARINA – mamãe e eu pretendemos ir domingo a noite.

NELZA – vamos sim e Denise podia ir também.

DENISE – mas eu vou... se vou... com certeza que vou.

PAULO (COMEMORANDO) – legal! Quase toda família na igreja.

HENRIQUE –pode ir toda família. O André... o senhor também, papai.

ALTAIR – como? Papai?

HENRIQUE – É. Porque o espanto? O senhor não é o meu pai?

ALTAIR – puxa, meu filho. Sabe quanto tempo não me chama de pai?

HENRIQUE – puxa, papai. Sabe quanto tempo não me chama de filho?

FAZ SE UM SILÊNCIO... HENRIQUE CONTINUA.

HENRIQUE – agora eu sei que o senhor não teve culpa da morte de Jeruza. (FICA MEIO SEM GRAÇA, MAS CONTINUA) – Acho que devo te pedir perdão.Não quero que nada atrapalha minha nova vida. Minha vida com Deus. Por favor, pai. Me perdoa.

ALTAIR – (TODO COMOVIDO ABRAÇA O FILHO) – Oh meu filho, eu é que sou o errado.

PAULO - puxa vida! Estou tão feliz. Vou até cantar um corinho.

MARINA – Já sei, Paulo. “Andam procurando a razão de viver”.

PAULO – este mesmo.

PAULO SENTA E TOCA O CANTICO QUE É ACOMPANHADO POR TODOS. AO TÉRMINO DO CÂNTICO FECHA-SE AS CORTINAS.

NARRADOR – Jesus também pode te ajudar nesta caminhada. Ele quer ajudar a sua família. Tente, dê-lhe uma chance em sua vida. Decida neste momento a caminhar ao lado de Jesus.as palavras de Jesus ecoam até aos nossos dias: “Eu sou o caminho e a verdade e a vida...” caminhará e não se cansará. E se chorar, ele secará de seus olhos toda lágrima. E juntos entrarão os portais da eternidade. E assim a humanidade caminhará feliz com Jesus.

ABRE AS CORTINAS NOVAMENTE COM O VIOLONISTA, OS JOVENS I,II,III SENTADOS E AINDA IMÓVEIS. O VIOLONISTA TOCA O CANTICO RAZÃO DE VIVER E DURANTE O CÂNTICO OS JOVENS VÃO SE LEVANTANDO RESPECTIVAMENTE. TODO ELEICO DA PEÇA ENTRA EM CENA E CANTAM TAMBÉM.


FIM