Narrador – O ministério do Teatro da Igreja deseja a todos
uma boa noite. Hoje, vocês terão a oportunidade de ver a
encenação da história do nosso único e fiel
salvador, desde antes da fundação do mundo até o
nosso futuro convívio com ele na glória, na vida eterna,
inclusive a última Páscoa celebrada pelo Mestre Jesus e
seus discípulos. Não intentamos fazer nenhum tipo de acréscimo
às Escrituras Sagradas. Por se tratar de uma peça teatral,
comunicamos que os amados irmãos verão, em algumas cenas,
diálogos simbólicos entre o inimigo e algumas pessoas descritas
na Bíblia Sagrada, apesar de não terem de fato acontecido.
Só foram inseridos na peça por motivo de encenação,
para representar a contraposição entre o bem e o mau, no
qual sempre quem prevalece é o nosso Senhor Jesus e todos aqueles
que o amam em espírito e em verdade. Que Deus abençoe a
todos vocês!
Dois anjos estão estáticos, como os querubins da arca,
e declamando, sem a melodia, o início do cântico “Glória
a Deus por Suas Maravilhas”. Eis que entra em cena Lúcifer,
inconformado com a “subserviência” dos dois querubins.
A1 – “Nosso Deus é soberano”!
A2 – “Ele reina antes da fundação do mundo”!
Veste negra – (reclamando) Reinando... Reinando... O que é
reinar? Quem lhe constituiu rei sobre nós? Qual será o critério
usado por vós para me convencer a acatar? Por que é que
quem cria deve ter a posse de algo? Por que à destra do pai há
um que reina desde sempre só por ser filho? Por que EU tenho que
aceitar esse favoritismo?
A 1 – Vejo que não está mais feliz aqui, no céu,
Lúcifer, como nós, demais anjos.
A 2 – Vejo em ti que o que era louvor inexplicavelmente tornou-se
rancor.
Veste negra – É! Estou vendo que continuam com a mesma conformidade
celestial. E ficariam bem melhor se, como eu, descobrissem que aqui no
céu não cabe essa cultura de rebanho. Seres celestiais que
se prezam não devem se deixar comandar. E eu não estou nada
satisfeito em ficar aqui apenas observando essa tal de criação
chamada planeta Terra, que Deus elaborou. Até agora, o Deus criador
não nos deixou operá-la.
A1 – Você sabe muito bem qual será e sempre foi a nossa
função.
A2 – E em relação à Terra não será
diferente. Teremos a função de proteger seus habitantes,
enviar mensagens...
A1 – Já sei o que está acontecendo com você,
Lúcifer. Está com inveja do que vive à destra do
pai desde sempre e é maior do que nós, pois é filho.
Veste negra –Basta! Entre amar, eu escolho o mal. Quero reivindicar
poderes sobre a criação. É isso que vocês chamam
de justiça divina para com seus alunos e ministros? Tenho um plano
mais audacioso! Mais ambicioso! E não vai ser o filho que vai me
atrapalhar.
Voz em off (Deus) – Acaso sua escolha, seus planos e suas ambições
estão longe do meu controle e fora do meu conhecimento, Lúcifer.
Vestes Negras – Esse é o problema. Sempre sairemos perdendo
quando a hierarquia superiora sabe tudo, pode tudo e está em todos
os lugares. Parece até um sistema injusto de poder.
Voz em Off (Deus) – Você sabe muito bem, anjo rebelde, que
estou em todos os lugares, tudo posso e sou oniciente justamente por que
sou mais do que justo. (suspira) Lúcifer, Lúcifer... Prepare-se
para passear pela Terra e rodear por ela, ciente de que está para
sempre derrotado.
Lúcifer faz expressão de satisfeito
Voz em Off (Deus) – Deixará de acordo com sua vontade, mas
não em respeito à sua vontade, de ser celestial. Será
o revés, o contrário, o oposto do meu caráter. Recriá-lo-ei
ao avesso. Será o pecado.
Veste negra – Chame-me como quiser. Não é o Deus que
pode tudo? Só quero saber uma coisa. Não me dará
nem ao menos a chance de provar que posso levar alguns dessa tal de criação
comigo?
Voz em off (Deus) – Isso também estava sob meus desígnios!
Vestes negras esfrega as mãos em contentamento.
Voz em off (Deus) - E todo aquele que lhe der ouvidos, eis que estará
preso contigo em algemas eternas! Incluindo seres celestiais, que batizei
de anjos e seres da nova criação chamada Terra, que batizei
de homens.
Veste negra – (irônico) Ah! Nunca foi tão agradável
ser precipitado de algum lugar! O sofrimento nunca é total quando
se têm alguns seres para sofrer junto!
Vestes negras sai de cena. Agora as roupas não são togas,
mas calças e camisas, respeitando as cores.
Narrador – E em várias ocasiões, vemos esse desafiante
se por em posição contrária a Deus. Entretanto, jamais
com equilíbrio de forças, mesmo que para algumas batalhas
ele venha para ganhar. Algumas delas vocês verão nessa peça,
onde também vocês contemplarão Jesus Além do
Natal!
Cena 2
Fornalha
Mesaque(A1), Sadraque(A2), Abede Nego(A3) entram em cena, conduzidos
por Vestes Negras em direção a fornalha. - Dn 3
Vestes Negras – São vocês que vão queimar! São
vocês que vão queimar, Sadraque, Mesaque e Abede Nego! Quem
mandou não adorarem a estátua de ouro do Rei Nabucodonosor!
Serão lançados no fogo ardente!
Abede-Nego – Queimaremos, mas só temporariamente!
Mesaque –Abede-Nego tem razão. O fogo eterno é muito
mais doloroso.
Sadraque – Como já dissemos ao rei Nabucodonosor, diremos
a ti também, seja lá o que você for, pois quanto a
ti, só temos certeza que o teu caráter é bem diferente
do de Deus altíssimo. Logo, seu caráter é o pior
possível. Se o nos livrar dessa fornalha de fogo ardente é
desígnio do nosso Deus, ele nos livrará tanto do fogo como
das mãos de quem nos lançar.
Vestes Negras – Essas referências suas a mim muito me agradam.
Soam como elogios. Mas essa atitude de vocês não agrada nem
um pouco a paz! Portanto, também farei referências a vocês:
perturbadores da ordem pública! Enquanto todos, em respeito à
autoridade, adoravam a estátua, vocês três, Mesaque,
Sadraque e Abede-Nego, se negaram, infringindo as leis. Vocês três
são amantes da guerra?
Mesaque – Errado. Somos parte da batalha entre o bem e o mal, e
sempre nos posicionando ao lado do bem, seja em que circunstância
for.
Sadraque – Hoje, nos posicionamos contrariamente a lei dos homens
por ela ter ido contra a lei de Deus.
Abede-Nego – Não se trata de desobediência às
autoridades. Trata-se da obediência às ordens superiores
a essas mesmas autoridades. E vamos logo com isso! Deus nos visita é
na hora da aflição. E hoje não será diferente!
Vestes Negras – Portanto! Fogo neles!
Vestes Negras gargalha, e cobre os três com enorme cobertor que
representará a fogueira. Vestes Negras sai de cena, gargalhando.
Depois disso, o "semelhante a filho de Deus, Jesus Cristo (o mesmo
ator, pois trata-se de uma concepção subentendida), que
estava sentado no primeiro banco, confundido com os demais espectadores
por estar com uma roupa comum, entra também por debaixo do cobertor.
Sadraque – Meu Deus! Já estamos na fogueira?
Abede-Nego – Claro, Sadraque!
Mesaque – O estranho é que não estou sentindo nenhum
calor insuportável.
Abede-Nego – Nem eu. (surpreende-se) Olha só: quando nos
jogaram na fogueira, já havia outra pessoa nela por nós
esperando.
Sadraque – E quem será ele?
Abede-Nego – Ora, Sadraque, quem seria senão...
Mesaque, Sadraque e Abede Nego – ...o filho de Deus!
Jesus Cristo – Paz seja convosco. Meus servos, sabem que após
vocês deixaram essa provação, serão honrados
pelo Senhor. Até mesmo o rei Nabucodonosor assumirá que
existe um Deus altíssimo que jamais deveria ter sido afrontado.
Todos os reconhecerão como servos fiéis. O nome de Deus
não será mais blasfemado pelos súditos de Nabucodonosor,
e isso tudo por vossa causa. Não deixem de falar de coisas que
vocês tem vivido, visto e ouvido, com moderação e
sem se ensoberbecerem. Eis que vos tiro da fogueira para vos dar vida
em abundância.
Os três saem da fogueira, enquanto que Cristo, ainda embaixo do
cobertor, sai por trás.
Sadraque, Mesaque e Abede Nego – Glória a Deus! Aleluia!
Bendito o filho de Deus!
Cena 3
Natal
José(A1), com sua esposa Maria(A2) do lado, clama ao dono da hospedaria
(vestes negras) para que ele e sua esposa permaneçam ali.
José – Meu bom rapaz. Eu poderia me hospedar em seu estabelecimento,
já que a minha mulher está para dar à luz?
Maria está agonizante
Vestes Negras – Ora, meu bom homem. Não tem lugar na minha
hospedaria. Ainda mais para uma mulher que está para dar à
luz. Não quero ceder lugar para um momento tão imundo como
esse.
José – Imundo? Meu Senhor, eu venho da Galiléia para
chegar aqui em Belém e ser tratado com toda essa hostilidade.
Vestes Negras – Bom...lhe ofereço a estrebaria. Já
disse, não tenho nada contra o filho, mas não é por
que é filho que vai ficar com o melhor lugar! Fique com a estrebaria
se quiser. Lá tem bastante imundícia para se misturar com
a imundícia que é um nascimento humano. Hã, onde
já se viu dar o reino para o nascido de uma mulher? Tantos seres
celestiais evoluídos para receber o reino...
José – Como disse Senhor?
Vestes Negras – Nada! Andem, vão logo para estrebaria. Vai
que essa criança nasce aqui! Vai ser a mesma coisa que nascer em
uma de minhas dependências! Andem, andem!
José e Maria encenam no fundo da Igreja o nascimento de Jesus Cristo.
Narrador – Então, Jesus nasceu. Os anos se passaram. E o
menino Jesus cresceu. Com trinta anos, ele começa seu ministério
para anunciar as boas novas, curar e realizar milagres e prodígios.
Jesus Cristo aparece, sendo observado de soslaio por Vestes Negras.
Vestes Negras – (com sarcasmo) Olha só... É o filho
de Deus mesmo?(aponta para o alto) É ou não é? Se
for lembre-se de que seu Pai me dera a garantia de eu estar no mundo.
Logo, também faço parte da história secular e pleiteio
por compô-la de acordo como que me foi garantido. Portanto, sei
que não vou ser destruído antes da hora. Sabe? Eu confesso
que esse teu triunfalismo me incomoda. (zomba) Hã, Pai da Eternidade!
A minha linha de ação é o momento, é o fato.
Sou adepto do investimento a curto prazo. Em meio a um grande deserto
que os humanos parecem estar, eu, num estalar de dedos, lhes dou pedra
como pão, e os humanos passam a acreditar que realmente estão
comendo pão. Digo para eles que isso tudo é meu, pois estou
aqui há bastante tempo. E eles acreditam, pois confundo os humanos
com a seguinte deturpação: ter riqueza é o mesmo
que... ser amigo das riquezas. Além disso, por minha diversidade
de culto politeísta ser muito mais ampla que o seu monoteísmo
singular, atraio muito mais pessoas a me adorarem. E ser adorado é
o que mais me satisfaz! E te digo que isso vai te fazer bem. Poderá
desfrutar das riquezas do reino antes do tempo!
Jesus Cristo – Retira-te, Satanás. Fico mesmo é com
o Pai, que não nos desampara nem no deserto. Ser abundante na obra
sacia qualquer tipo de fome.A tua proposta é sedutora, mas contém
vários erros. Só queria abordar um deles. Quem investe em
estrutura de base, a longo prazo, está bem mais seguro do que quem
investe em imediatismo. E para corrigir essa tua consideração
em relação à adoração ao Deus único,
é preciso afirmar que ele é UM em TRÊS. Ele é
singular e plural ao mesmo tempo. NELE os homens podem ver intimidade
e totalidade. Ele é Deus. Eu e Ele somos um. O meu Pai é
dono de muita coisa que você está dizendo que é sua,
como a música, o teatro e outras coisas mais. Você está
dizendo que são suas as coisas que originaram do terreno divino
e as patenteou sem permissão. Você sabe mais do que ninguém
que Ele é o dono de tudo, e por ser Ele o dono, quando o homem
o adora, consegue fazer bom uso de tudo! Meu Pai não condena as
coisas, e sim o mau uso das coisas. Por isso que eu te lembro o que está
escrito: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele
darás culto”
Vestes Negras – Pudera você se posicionar assim. Não
é o filho de Deus? Entretanto, os homens não terão
esse discernimento.
Jesus Cristo – Ora, além do meu amor pelos homens, porque
você acha que virá o consolador sobre a Terra? Ele virá
para orientar os homens. E enquanto eu estou aqui como homem, faço
também essa função.
Vestes Negras – Eu farei justamente o contrário! Quando eu
digo aos homens: “abram os olhos!”, parecendo até as
exortações que vocês fazem, até nisso eu os
confundo. Não uso como arma apenas as mentiras, mas também
as meias-verdades. Quer ver? Pois espere e verás!
Vestes Negras sai de cena. B. O. Vestes Negras retorna, ao lado de uma
mulher.
Mulher – Será que tem problema eu fazer um elogio um pouco
mais pomposo à mãe deste que veio para salvar o mundo.
Vestes Negras – Não só recomendo que faça isso
como digo que é bem salutar equiparar a importância do que
veio salvar o mundo com a importância de sua mãe. Faça
logo, antes que ele vá para outro lugar.
Mulher – Sim senhor...(a Jesus) Jesus, Jesus! Bem aventurada aquela
que te concebeu, e os seios que te amamentaram!
Jesus Cristo – (recebendo-a com simpatia) Antes, bem aventurado
são os que ouvem as minhas palavras.
A mulher parece ter entendido o que Jesus falou. Sai de cena, olhando
com desconfiança para Vestes Negras.
Narrador – (ao público) Crer em mim é o único
jeito de ser amigo da verdade. E vós sois meus amigos, se fazeis
o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo
não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho vos chamado de amigos,
porque tudo quanto ouvi de meu pai vos tenho dado a conhecer.
Vestes Negras – (menosprezando) Te vejo por aí, filho do
altíssimo.
Vestes Negras sai de cena. Foco em Jesus, em cena conversando com várias
pessoas que vêm vê-lo.
Cena 4
Entrada Triunfal em Jerusalém
Vestes Negras em cena, sendo interpelado por um grego.
Grego(A1) – Com licença, Senhor! Sou grego e vim para adorar
a esse Cristo. Mas desconheço um pouco suas obras. Entretanto,
devido ao caráter politeísta de minha cultura, isto é,
de crença em vários deuses, creio que ele servirá
direitinho para a minha coleção.
Vestes Negras – Ora, claro que eu sei muito sobre esse Cristo que
veio aqui para Jerusalém para ser glorificado. Também conheço
demais a sua cultura grega, muito preocupada em saciar a intelectualidade
sobre diversos deuses. Creio que ele servirá muito bem para a sua
coleção. Entretanto, não dê ouvidos quando
ele falar de adoração exclusiva. Trata-se de um Deus muito
ciumento! Hoje ele está em forma humana, mas logo, logo, estará
em forma de divindade esculpida, prontinha para ser adorada.
Um judeu habitante de Jerusalém entra em cena.
JHJ(A3) – Com licença, senhores. Sou daqui de Jerusalém
e vejo que os dois são estrangeiros.
Grego – Eu vim de Betsaida da Galiléia, e esse senhor que
está comigo eu não sei de onde veio.
Vestes Negras – Ah, isso não importa...
Grego – É, mais vejo que ele sabe muito sobre esse Jesus.
Disse-me que ele tornará uma divindade igual às muitas já
existentes no meu país, a Grécia.
Vestes Negras – Ora, você é habitante de Jerusalém?
JHJ – Sou.
Vestes Negras – Pois saiba que, para você, é melhor
apreciar uma outra característica de Jesus. Ele será o libertador
de Israel das garras do poder romano. Trata-se de um líder militar,
e creio que, como tal, deve receber as devidas honras. Vamos lá,
vamos lá. Peguem ramos de palmeiras e enalteçam vosso mestre!
O habitante de Jerusalém e o grego bradavam "Hosanas".
Entram Jesus e um discípulo verdadeiro, que exalta Jesus como ele
deve ser exaltado.
Discípulo – Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor!
Paz no céu e glória nas maiores alturas!
Vestes Negras – Ei! Repreende o seu discípulo! Ele parece
está o exaltando de forma exclusivista, de modo a discriminar a
concepção de outros povos sobre você!
Jesus Cristo – Nada disso! Eles estão apenas adorando como
se deve adorar. Diversidade cultural não é mistura de religiões,
de crenças... Usar o meu nome a partir de falsas impressões
sobre mim que é aprisionar a mente dos homens. Se os meus discípulos
não clamarem como se deve clamar, as pedras clamarão. É
um privilégio dos homens serem cooperadores da obra de Deus, mas
a obra de Deus prossegue em qualquer circunstância.
Vestes Negras esbraveja, anda de um lado para outro, enfurecido. Jesus
Cristo sai de cena, seguido pelos três, que o contemplam. Logo depois,
Vestes Negras perde a compostura e esbraveja, sozinho em cena.
Vestes Negras – Reconheço! Reconheço que ele tenha
passado por tudo sem ter tido pecado! Mas isso não lhe dá
o direito de passar por aqui sem o maior dos sofrimentos. O maior dos
pesos! O maior dos fardos! Ora, não é o que está
escrito? Que é necessário que ele seja morto por vós!
Então eu quero ver! E com todos os requintes de crueldade e de
humilhação! Pois é! (ao público) É
necessário que vocês vejam o preço que é ser
fiel a Deus aqui na terra! Estão assustados? Estão assustados?!!
Voz em off (Deus) – Cale-se, Satanás. Já chega. (...)
você está, como sempre, distorcendo a realidade. Meu filho,
meu único filho, de fato vai morrer, mas não porque você
quer, e sim eu por que eu quis E por causa disso, os homens serão
lavados e remidos pelo sangue do cordeiro, do meu filho unigênito.
Mas vai conseguir passar pela morte vitorioso, como todos os meus servos
que perseverarão até o fim. E ai do traidor, aquele que
é intermédio dessa entrega, ai dos que o mataram e ainda
o matam, ai dos que pecam sem arrependimento, dos que mentem, dos feiticeiros,
dos idólatras, dos amantes da abominação e... ai
de ti!
Vestes Negras – Tudo bem, ô Deus. Olha aqui, só quero
lembrar que me garantiu que eu vou poder levar alguns comigo!
Voz em off (Deus) – Não sou homem para que minta ou me arrependa.
Todavia, não admito que toque em meus filhos.
Vestes Negras – Nem tudo o que é criatura é filho.
Voz em off (Deus) – Mas a todos os que receberem meu filho Jesus
eu dei o poder de serem feitos meus filhos. Quero dizer-te que a profecia
da morte do meu filho entregue à morte em favor de muitos será
cumprida. Não porque você quer, mas porque eu quero.
Vestes Negras – (gargalhando) Eu só quero é estar
aqui para ver! Mas antes, tenho mais um serviço a fazer.
Vestes Negras sai de cena.
Cena 5
Judas, o traidor.
Judas Iscariotes entra em cena refletindo, com umas moedas nas mãos.
Vestes Negras dá um encontrão em Judas que deixa cair as
moedas.
Judas – O que é isso? Não olha por onde anda?!
Judas cata as moedas.
Vestes Negras – Queira me desculpar, meu senhor.
Judas – Se já não bastasse a decisão que tomei
para entregar meu mestre pelo preço dessas trinta moedas de prata,
ainda quer me fazer perdê-las.
Vestes Negras – Ei, acho que estou reconhecendo você. Não
é Judas Iscariotes, antigo pertencente ao grupo dos Zelotes.
Judas – Sou eu mesmo. Mas...Agora pertenço a outro grupo.
Com licença que eu tenho que ir.
Vestes Negras – (suspira) Ah, zelo como o zelo dos Zelotes não
existe mais.
Judas – O que mais você sabe sobre os Zelotes?
Vestes Negras – Ora, meu caro. Que é um grupo revolucionário
anti-romano, também conhecidos como Sicários, devido a uma
arma que nunca se apartam dela, chamada sica, uma espécie de punhal...
Judas parece esconder um punhal em suas roupas.
Vestes Negras – Essa arma usam em defesa da lei mosaica. Ah, esse
grupo de judeus é que são os verdadeiros defensores da lei
de Deus. São eles que realmente só aceitam como poder o
Deus, e nada mais. Nem romano, nem nada! Só Deus no poder. É,
e esse tal de Jesus aí, que todos esperam que vai destronar o poder
Romano, parece que não vai ter nem capacidade nem competência
para isso. (ao ouvido de Judas, que acabar de catar as moedas) É
por isso que é sempre bom voltarmos as origens, meu caro. Sempre
é bom voltarmos para as origens, não é ISCARIOTES.
Vai por mim. Esse Jesus precisa sair de cena para que venha alguém
que, de fato, tire os Romanos do poder.
Vestes Negras sai de cena por um lado e Judas por outro.
Cena 6.
Tridor indicado e Última ceia
Jesus está em cena, sentado à mesa com pão asmo e
vinho. Judas está sentado entre o público.
Jesus – Em verdade vos digo que de vós, haverá quem
me trairá. E esse que me trairá, está comigo apenas
como companhia, e não como companheiro. Mesmo assim, chamar-lhe-ei
de amigo, dando mais uma chance a ele no último instante. E ele
é um dentre vós.
Judas o levanta e descai o semblante para parecer entristecido.
Judas – Mestre...
Jesus está incomodado com a presença de Judas. Chega ao
ouvido de Judas, sussurra algo e retorna à mesa para celebrar a
ceia.
Jesus – (pega uma quantidade de pão, entrega a alguns “apóstolos”
(figurantes). Isto é o meu corpo. Tomai, comei.. E isto é
meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos,
para a remissão de pecados. Fazei isso em memória de mim).
Celebração da ceia.
Cena 7
Morte de Jesus
Som de horror. Vestes Negras senta em um dos bancos, enquanto que dois
soldados conduzem Jesus que, carregando a cruz, é humilhado por
eles e pregado na cruz. Em cena, dois homens já crucificados. Dois
homens e uma mulher acompanham os guardas e Jesus. A mulher e os homens
choram muito. Depois de ter Jesus morre. O efeito da luz exprime o cair
da tarde. Assim, a mulher e os homens retiram Jesus da cruz, o cobrem
com um pano e carregam-no para fora de cena. Tudo isso ocorrendo com o
uma música ao fundo. Na transição da “morte”
para a “ressurreição”, os ladrões crucificados
também saem de cena.
Vestes Negras observa a cena, sentado em um dos bancos, enquanto dois
soldados conduzem Jesus que, carregando a cruz, é humilhado por
eles e pregado na cruz. Um figurante, acompanhando, chora, e depois de
ter Jesus expirado, ela o retira da cruz e o cobre com um pano e deixa
sobre o palco. Vestes negras passeia na Igreja, como se nada existisse,
só ele.
Vestes Negras – Ah, como é boa a sensação agradável.
É tão gostosa impressão de que você está
numa boa durante um momento de prazer. Tente vocês também!
É só não olhar para o futuro. Dê um trago no
cigarro sem olhar para a enfisema pulmonar. Dê uma cheirada na cocaína
sem olhar para o hipertensão e taquicardia. Mantenha relação
sexual com várias pessoas sem olhar para a doença venérea.
Adultere sem olhar para o futuro que esses crentes costumam chamar de(grita,
com raiva) JUÍZO FINAL!!!!(modifica a expressão para um
sorrido maquiavélico) Vai por mim... A vida será muito mais
agradável.
B.O.
Depois, Vestes Negras permanece em cena, olhando para várias pessoas
que, ao seu redor, gritam incessantemente.
Pessoas – Ressuscitou! (B.O). Glória a Deus! (B.O). Ele está
vivo! (B.O). Vivo! Ressuscitou! (B.O). Aleluia! Ele está vivo!
Ele ressuscitou! Glória a Deus! Ele está vivo! Glória
a Deus! Aleluia! Ele está vivo!
Vestes Negras se incomoda muito com os gritos, saindo de cena com os ouvidos
tapados.
Cena 8
Conversão de Saulo
Narrador – (regozijando) Depois de três dias, veio a vitória
de Jesus sobre a morte. Ele ressuscitou! Entretanto, o diabo prosseguiu
em sua obra maligna, mesmo sentindo os efeitos da derrota.
Saulo(A1) entra em cena. Vestes negras, mancando, caminha ao seu lado,
tentando fazer sua cabeça.
Vestes Negras– (eufórico) Isso mesmo, meu bom rapaz Saulo.
O vigor da juventude deve ser utilizado na perseguição a
esses cristãos. Meros pretensiosos que insistem em nos convidar
a seguir a essa seita, que nada mais é do que uma heresia do judaísmo.
Eles alegam que só eles são os escolhidos, que tanto judeus
quanto romanos foram os culpados pela morte desse tal Cristo. Que petulantes!
Ainda dizem que esse Cristo, além de ser o messias, ressuscitou
dentre os mortos. É demais para minha longa estada aqui na Terra.
Jesus entra em cena.
Jesus Cristo –Arreda-te, Satanás?
Vestes Negras, mais uma vez, foge. Entretanto, ainda mais apavorado, capengando
mais ainda com o que viu. Jesus aproxima-se de Saulo e pergunta ao pé
do ouvido.
Jesus Cristo – Saulo, Saulo, por que me persegues?
Jesus Cristo – (a Saulo) Por que me persegues?
Saulo cai de joelhos, de olhos fechados, querendo enxergar e não
podendo, perguntando incessantemente:
Saulo – (agonizando) Quem és tu, Senhor? Quem és tu,
Senhor?
Jesus se aproxima diz ao ouvido de Saulo.
Saulo – (chorando)Quem és tu, Senhor?
Jesus – (sussurra) Eu sou Jesus.
Saulo (Paulo) cai de joelhos, fica em longa oração. Depois,
vai abrindo os olhos vagarosamente. Jesus se retira morosamente. Entra
Ananias, que ora junto com Paulo. Logo depois que Ananias sai de cena,
Paulo, olhando para os céus, diz:
Saulo – Ainda está em tempo... Graças a Deus ainda
está em tempo.
Vestes negras, agora de muletas, entra em cena.
Vestes Negras – Como assim ainda está em tempo?
Saulo – De dedicar o meu vigor da juventude à pregação
do nome de Jesus. Eu era cego! Agora eu enxergo.
Vestes Negras – Pensa que me engana! Agora estou te reconhecendo!
Você é aquele que sempre foi contra a Igreja de Cristo. E
agora quer nos enganar que é um membro da Igreja de Cristo. Não
vai me enganar! Nem a mim nem a ninguém.
Vestes Negras – Mas agora posso dizer que tenho a marca de Cristo
em mim. E depois desse dia, mais marcas eu terei. Não pode me acusar
do que fui no passado, se hoje eu sou outro. Nasci de novo. Finalmente
entendi o significado do novo nascimento.
Vestes Negras – Novo nascimento? O que é isso? Isso por acaso
apaga todas falhas cometidas por você no passado. Vai escapar assim
de ter participado da morte de pessoas só por ter (zomba) nascido
de novo?
Paulo – Mas o fato de eu estar em Cristo me faz nova criatura. As
coisas velhas já passaram. Eis que se fizeram novas.
Vestes Negras – Explique melhor, para que eu realmente compreenda
essa transição súbita de um pólo a outro.
Não há um mínimo de coerência numa transformação
tão radical de perseguidor a seguidor de uma filosofia de vida.
Paulo – Digo a você que o meu encontro com Cristo significa
o meu reconhecimento de que ele de fato é Deus. Sem um verdadeiro
encontro com ele, é impossível crer. E já que eu
cri, posso ter a garantia de que minha vida será para sempre a
mortificação de atos abomináveis! Não ficarei
satisfeito com as meus pecados, como antes eu ficava, pois tenho a certeza
de que há um olhar justo pairando sobre mim o tempo todo. E digo
que vou topar o desafio. O fato de eu perder prestígio, posição
social mostra que é verdadeira a minha conversão. O que
era lucro para mim agora é perda.
Vestes Negras – (aplaude ironicamente) Belo discurso! Entretanto,
pode ter certeza que não somente cristo que te acompanhará!
Também estarei o acompanhando, em forma de espinho na carne, pois
o Justo me deu essa garantia. Não é o novo homem? Então,
agüenta essa carga!
Vestes Negras encostas as muletas em Paulo, que vai, aos poucos, se abatendo
e se entristecendo. Por isso, clama a Deus.
Paulo – Pai, livra-me desse espinho na carne! Pai, livra-me desse
espinho! Ó pai, não deixa a minha carne padecer desse jeito.
Deus (voz em off) – Coragem! A minha graça te basta! Lembre-se
também de que Mesaque, Sadraque e Abede-Nego passaram pela fornalha
acesa sem murmurar antes. Eu sou o mesmo hoje, ontem e sempre! Se eu estive
o protegendo, Paulo, mesmo antes de sua decisão por mim, que dirá
agora. Sua força se aperfeiçoa na fraqueza.
Paulo se ergue com dificuldade, percorre toda Igreja proferindo frases
do tipo “Fomos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo”;
“Creia no senhor Jesus que será salvo tu e tua casa”;
“Justificados mediante a fé, temos paz com Deus por meio
de nosso Senhor Jesus Cristo”; “Toda a língua confesse
que Jesus é Senhor, para glória de Deus Pai” para
cada pessoa sentada, de modo a evangelizar os espectadores exprimindo
sua viagem missionária e a pregação do Evangelho,
até o final das fileiras, retornando à frente da Igreja,
já envelhecido.
Paulo – "Combati o bom combate, completei a carreira, guardei
a fé. Já agora a coroa da justiça me está
guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não
somente a mim, mas a todos quantos amam a sua vinda".
Narrador – E aqueles que fazem a vontade de dois, morrem. Sim, morrem.
Mas de modo nenhum, passam pela segunda morte, mas vivem para sempre!
Paulo sai de cena. Depois, retorna, com várias pessoas, todas com
vestes brancas. O Narrador declama a pesia "Assim será o Amanhã".
No decorrer da poesia declamada, Jesus Cristo chega com várias
crianças ao redor, representando anjos, erguendo abraçando
Paulo e sendo abraçado pelas pessoas com vestes brancas.
Assim será o amanhã
(Marcos Alexandre)
Aconteceu que o dia chegou
Se estabeleceu o dia do Senhor
A lágrima secou pois não há mais dor
A cor de carmesim enfim alvejou
Porque com sangue foi que Cristo nos salvou
E a glória de Deus cintilou...
Eterno fulgor...
Inutilizou a lua e o Sol
Assim será o amanhã...
Jesus Cristo – Eis que estou convosco para sempre!
Na última estrofe, que é o seguimento da poesia, Vestes
Negras (Lúcifer) aparece, andando até o final da igreja,
preso a vários trapos, representando que está levando para
o inferno todo tipo de pecado, dor, imundície etc. Enquanto caminha,
narrador declama o seguinte restante da poesia:
Mas toda a justiça (de Deus)
Faz toda a imundícia (de vez)
Despencar num abismo bem longe do céu
Mas toda a justiça (de Deus)
Faz toda a imundícia (de vez)
Despencar num abismo bem longe do céu.
Fim
Flog
do autor
Flog
do autor II
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