O PALHAÇO CHICOTE E A BONECA CICUTA
Marcos Alexandre Dornelles da Silva
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O Palhaço chicote entra em cena, lambendo a sua gravata. A
boneca Xicuta só está com seus pezinhos em cena. Ela tem
uma cordinha pendurada em suas costas.
Chicote – Ai, ai. Como é bom ter uma gravata de
algodão doce só para mim. Só eu tenho uma gravata
de algodão doce. E vocês sabem o meu nome, meus
amiguinhos. Vocês sabem quem sou eu? O meu nome é
Chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... Xi! Esqueci meu nome.
Ah, lembrei. O meu nome é Chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiicote! Pois
é, Chicote. Sou um palhaço que faço, que
faço, que faço, que faço e aconteço. Mas
posso levar uma bronca quando sei, quando sei, quando sei que
mereço. E eu estou procurando a minha amiguinha que está
perdida por aí. Eu não sei onde eu a deixei
(expressão de choro). Hmmmm! Olha o meu biquinho de tristeza.
Estão vendo só? Isso é o que acontece quando a
gente deixa as coisas todas espalhadas por aí. Meus amiguinhos,
eu vou pedir uma ajuda a vocês. Vocês são
crianças, e crianças muitas vezes vêem melhor as
coisas. Os adultos vêem maldade em tudo! Criança
não! Criança é pura. Então, com o seu
olhar, vocês podem me ajudar a procurar? É, a procurar a
Xicuta. Ah, Xicuta é minha bonequinha. Eu ganhei ela ontem da
minha mãe, e não sei onde eu deixei. Vocês
estão aí de fora, e quem vê de fora, vê
melhor. Vamos, me ajudem. Quando eu for chegando perto vocês
dizem que “tá quente”, quando eu estiver longe,
vocês dizem que “tá frio”. Está
combinado assim? Então vamos lá!
O público infantil vai orientando o Palhaço Chicote na
procura da boneca. Ele simula que está com dificuldade de achar
até que encontra.
Chicote – Ahá! Achei minha amiguinha. Com Deus o Chicote
pode tudo! Com Deus o Chicote pode tudo! Estão vendo só!
Achei a Xicuta. É Xicuta é o nome dela. Vocês
querem ver? Ela vai falar o nome dela. Mas antes, nós temos que
cantar uma musiquinha para ela poder brincar com a gente. É
assim: “finge que é gente, pra a gente brincar! Finge que
é gente pra gente brincar!”
A boneca Xicuta vai fazendo uma performance dançante até que se levanta.
Xicuta – Oi amiguinhos! O meu nome é Cicuta.
O Palhaço Chicote faz cara de espanto.
Chicote – Cicuta? Cicuta não. O seu nome é Xicuta.
Xicuta – (a chicote) E o seu é Cicote.
Chicote – Não, o meu nome não é Cicote.
É
Chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii....
(ficando sem ar e, logo depois, respira). ...cote. Chiiiiiiicote.
Xicuta – Calma, Cicote. Assim você vai morrer com falta de ar.
Chicote – Eu vou morrer é de raiva por ouvir você
falar o meu nome e o seu nome errado. O meu nome é
Chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii....cote e o seu
nome é Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...cuta. Xicuta,
entendeu? E quer saber? Acho que você veio da loja com defeito.
Xicuta – (expressão de choramingo) Defeito só porque eu tenho a língua presa?
Chicote – Não é só por isso! É que na
televisão você fala o nome das pessoas direito e o seu
nome também direito.
Xicuta – Ah, mas eu falo o nome das crianças que
estão nos assistindo direitinho, quer ver. Olha só,
aquele ali é Macarrão. Macarrão Cunha Azevedo. E
aquela ali é a Cenoura. Cenoura da Silva Silveira. E aquela ali
se chama...
Chicote – (interrompendo) Chega, Xicuta. Não adianta!
Não adianta que eu vou te levar para trocar por outra lá
na loja. Vem cá!
Chicote agarra Xicuta que resiste.
Xicuta – Não! Por favor, Cicote!
Chicote – O meu nome é Chicote!
Xicuta – Por favor. Eu não quero voltar para aquela
fábrica. Lá tem homens maus que me fabricaram. Não
me deixe voltar para lá!
Chicote – Maus? Como assim “maus”, Xicuta?
Xicuta – (chorando) Sabe o que é? Eu vou contar para você. Antes de eles fabricarem as bonecas Cicuta...
Chicote – Xicuta.
Xicuta – Ah, você sabe. Pois é, quando eles
estão fabricando a gente, eles falam umas coisas estranhas.
Chicote – Como assim “coisas estranhas?”
Xicuta – É, eles falam que não importa que as
crianças vão ficar tristes, não importa que as
crianças vão ficar sem sono, não importa que as
crianças vão ficar sem estudar. Só o que importa
é vender, vender e vender as bonecas.
Chicote – Ah, mas não é possível. Eles
parecem tão bonzinhos no comercial da Televisão. Quer
saber, Xicuta? Acho que você está é mentindo, e
fique sabendo você que mentir é muito feio. E por isso eu
vou trocar você por outra sim.
Xicuta – Não! Por favor. Olha imagine se a outra
também estiver com esse defeito? Aí, você vai ficar
indo e voltando, indo e voltando, indo e voltando para a loja. Eles
vão fazer você de palhaço.
Chicote – É mesmo. Então vamos pensar.
Chicote e Xicuta andam para lá e para cá.
Chicote – Peraí, Xicuta. Eu já sou um palhaço.
Xicuta – Eu quis dizer bobo. Bobo!
Chicote – Ah bom...
Chicote e Xicuta andam para cá e para lá.
Chicote – Ei, Xicuta. Então você está me dizendo que palhaço é mesma coisa que bobo?
Xicuta – Ai, ai, ai. Parece mesmo, pois você fica com essa
bobeira e não pensa numa idéia para me consertar, Cicote.
Chicote – O meu nome é Chicote.
Xicuta – Ah, você entendeu. E quer saber. Vai ver que
você não gostou de mim desde início. Só
pediu para sua mamãe me comprar porque todos seus amiguinhos
têm uma boneca igual a mim.
Chicote – E se isso for verdade, hein, Xicuta?
Xicuta – Ah, então quer dizer que se os seus amiguinhos se
jogarem no meio da rua para serem atropelados pelos carros você
faz isso também. Hein, hein, hein, Cicote?
Chicote – (vociferando) O meu nome é...
Xicuta se encurva, com as duas mãos escondendo rosto, demonstrando medo. Chicote percebe e modifica sua expressão.
Chicote – Está bem... Eu vou agüentar você
falar meu nome errado, mas só enquanto a gente não
conserta você.
Xicuta – A gente?
Chicote – É. EU vou te consertar e VOCÊ vai se
consertar também! Não é só os outros que
têm que nos concertar. Nós também temos que nos
concertar. Já até tive uma idéia para isso.
Xicuta – Que bom! E qual seria essa idéia?
Chicote – Ora, a gente te desmontar.
Xicuta – (gagueja assustada) M-me desmontar? Mas vai doer muito.
Chicote – Xicuta, nem tudo que é bom para a gente é
sem dor. Pelo contrário, as coisas que não são
tão agradáveis muitas vezes são melhores para a
gente. Por exemplo, as injeções que os médicos
dão na gente são boas. As palmadinhas que os papais e as
mamães dão na gente são boas para a gente
não ter que apanhar da polícia na rua, e por aí
vai. E para a gente mudar de um erro para um acerto, é bom
deixar alguém nos desmontar e montar de novo, como por exemplo,
Deus, que faz assim com os homens.
Xicuta – Deus faz assim como os homens?
Chicote – Sim, mas só os homens se deixam ser desmontados para serem montados de novo.
Xicuta – Que legal. Então quero ser um brinquedo obediente também. Vai, me desmonta e monta logo.
Chicote – Deixa comigo. Deixa eu começar examinando as
suas costas. Deixe-me ver.
Lalalálálálalalálá.
Xicuta – Ô Cicote? Você tem experiência nesse desmonte de brinquedos mesmo?
Chicote – (examinando as costas de Xicuta) Claro!
Xicuta – Vê lá, hein, Cicote, porque é muito
perigoso alguém que não sabe desmontar brinquedos
desmontar uma bonequinha frágil como eu.
Chicote – (examinando as costas da Xicuta) Ora, não se
preocupe, Xicuta. Um dia eu desmontei um radinho de brinquedo e ele
ficou melhor ainda.
Xicuta – Como assim “melhor ainda”?
Chicote – (examinando as costas da Xicuta) Ele virou um telefone
de brinquedo. (pausa) Caramba! Olha o que eu achei nas suas costas? Uma
cruz de cabeça para baixo. E por isso que quando eu te
abraçava eu ficava todo cheio de dor e não sabia o que
era. Vou jogar essa cruz de cabeça para baixo fora, sabe.
Xicuta – Mas será que isso é o motivo de eu falar errado.
Chicote – Calma, Xicuta. Vou continuar examinando você. Talvez esse não seja o único defeito.
Xicuta – Você está me chamando de toda errada, é?
Chicote – Calma, Xicuta. Vai ficar tudo bem. Vamos examinar agora
a sua barriguinha. Ela é tão cheinha. Vamos ver de que
ela está cheinha.
Xicuta – Olha só, eu não como nenhuma porcaria.
Chicote vai tirando muitos doces da barriga da Xicuta e jogando para a platéia.
Chicote – (perplexo) Não come nenhuma porcaria, Xicuta?
Não come nenhuma porcaria? Xicuta, eu não encontrei
sequer uma frutinha na sua barriga. Só doces. Você pode
comer doce sim. Por exemplo, olha só a minha gravata. Eu sou o
único palhaço do mundo que tem uma gravata feita todinha
de algodão doce. Só que eu não fico lambendo a
gravata toda hora. Você percebeu?
Xicuta – Você tem razão, Cicote.
Chicote – E você está muito gulosa para uma boneca tão pequenininha.
Xicuta – Eu não sou pequenininha, sou Cicuta! Cicuta!
Chicote – E eu não sou Cicote. Sou CHHHHHHHHHHHHHHHHHicote!
Xicuta – Mas é porque...
Chicote – Está bem, está bem! Eu percebi que
você ainda está com esse defeito de falar o seu nome
errado e o nome das pessoas errado também. Mas me desculpe. Eu
não resisti. Bom, e qual será esse problema que faz com
que você fale o seu nome e o nome dos outros errado? Qual
será?
Xicuta – Para a falar a verdade, eu não sei?
Chicote – O que tinha de errado na sua barriguinha (dá uma
examinada rápida na barriga de Xicuta) eu consertei. E com as
suas costas (coloca, sem as crianças perceberem, um cartaz
adesivo com o seguinte dizer: “PUXE A CORDA”, dando a
entender para as crianças que estava de fato examinando-a) agora
também está tudo certinho.
Xicuta – O que será?
Chicote – Bom, talvez os nossos amiguinhos nos ajudem.
Xicuta – É. Quem sabe eles percebem alguma coisa que
não percebemos, pois as crianças são muito
espertas para isso.
Chicote e Xicuta andam para lá e para cá, permitindo que
as crianças percebam o que está escrito nas costas da
Xicuta. Certamente elas gritarão “puxe a corda” e
também perceberão numa cordinha dependurada desde o
início nas costas da boneca Xicuta.
Chicote – (ao público) O quê?
Xicuta – (ao público) O quê, amiguinhos? Falem mais alto!
Chicote – (ao público) Não estou entendendo. O quê? Puxe a carta?
Xicuta – Não, Cicote. Eu acho que é para PUXAR A CORDA. A corda, Cicote. A corda que tem nas minhas costas.
Chicote – Ai... É mesmo. Que distraído que eu sou.
Estão vendo como é ruim ficar desligado, amiguinhos.
Nós temos que ficar o tempo todo ligado para não ser
atropelado, para não ser enganado, para não ser tapeado,
para não ser esbofet...
Xicuta – Ai, Cicote. Está bom. Os nossos amiguinhos
já entenderem que eles têm que ficar completamente
ligados. Só que quem ainda não está completamente
ligada sou eu. Vai, me liga logo! Vai ver que é por isso que eu
ainda estou falando o meu nome e o nome dos outros de errado.
Chicote – Então ta legal. Lá vai. Contem comigo, amiguinhos. 1, 2, 3 e... já.
O palhaço chicote puxa a corda da boneca Xicuta.
Xicuta – SEU PORCO! VOCÊ É UM PORCO! EU
TAMBÉM SOU PORCA! AHHHHHHHHHH! VOCÊ NÃO VAI
CONSEGUIR DORMIR PORQUE É LEGAL SER DA NOITE, QUE NEM VAMPIRO!
AHHHHHHHHHH! O BOM MESMO É FICAR SEM TOMAR BANHO! O BOM MESMO
É DESRESPEITAR O PAPAI E A MAMÃE! AHHHHHHHHHH! EU SOU A
BONECA CICUTA! AHHHHHHHHHH
O Palhaço Chicote se assusta e fica bem longe, ouvindo essas
frases proferidas pela boneca Xicuta assustado. Ele se aproxima da
boneca e, escondido, consegue desligá-la. Enquanto isso, ela
está em pé encurvada para frente, exprimindo estar
desligada. O palhaço pega uma fita K7 que está no bolso
da boneca cicuta, joga no chão e coloca outra fita K7 no bolso
da boneca e puxa novamente a corda, dando a entender ao público
que era esse o problema.
Xicuta – (despertando morosamente e falando mansamente) SEU...
SEU... Cabelo está despenteado. Você deve fazer boas
amizades. Você tem que obedecer aos seus pais. Você pode
brincar de qualquer coisa que não te faça mal. O meu nome
é Xicuta é o seu é... é...é....
Suspense.
Xicuta – (com um enorme sorriso) CHIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIICOTE!
Todos vibram. Xicuta e Chicote se abraçam.
Chicote – Viram só, amiguinhos. Vocês podem brincar
de qualquer coisa que não lhe façam mal, não
é, boneca Xicuta
Xicuta – É isso aí, palhaço Chicote. Mas se,
mesmo assim, alguém insistir em dar para você alguma coisa
que lhe faça mal, entregue o brinquedo, a roupa ou esse objeto
para um adulto inteligente e ele vai lhe devolver o brinquedo, a roupa
ou o objeto sem aquilo que venha te fazer mal.
Chicote – Só que SE esse brinquedo, roupa ou objeto
só lhe faz mal, é melhor que ela desapareça por
completo! E só assim...
Xicuta e Chicote - ... VOCÊ VAI BRINCAR SEM SE PREJUDICAR!
Xicuta e Chicote cantam a música final.
Xicuta e Chicote – Se o mal vier habitar.
Dentro dos brinquedos.
É melhor escolher outra coisa pra brincar
Do que viver com medo.
REFRÃO
Vamos brincar, vamos brincar,
Para todo mundo se alegrar!
Vamos brincar, vamos brincar,
Para todo mundo se alegrar
Fim
Glória a Deus