1º Capítulo
Justino está em casa vendo televisão, estatelado em frente
ao aparelho de TV. Péricles e Vanessa chegam em casa, discutindo.
Estes dois são os filhos de Justino e Dona Graça.
Péricles – Não adianta, Vanessa! Depois que o Evandro
sair de casa, eu é que vou ficar com o quarto dele, você
está entendendo? Eu!
Vanessa – Nada disso! Você sabe que eu sempre sonhei em ter
um quarto só meu! Sempre dividi aquele muquifo com você!
Ô quartinho pequeno! Eu sou menina. Preciso de mais espaço!
Péricles – Só se for para fazer bagunça! E
falando nisso, apesar de eu ser menino, eu sou mais organizado. E eu vou
ficar com aquele quarto do Evandro!
Vanessa – Eu que vou!
Péricles – Eu que vou!
Vanessa – Eu que vou!
Graça entra em cena, dando fim à contenda dos filhos.
D. Graça – Crianças! Silêncio! Parem de brigar!
Não estão vendo que o pai de vocês está vendo
televisão!
Vanessa – Hã! Se formos parar de fazer alguma coisa porque
meu pai está vendo televisão, só vamos poder conversar
de madrugada, que é o único horário que ele não
está de frente para essa droga!
Péricles – Deixa o meu pai ver a televisão dele! Pelo
menos ele não perturba a gente como a minha mãe.
D. Graça – Eu não perturbo vocês! Eu apenas
educo vocês. Está vendo, Justino! Isso é q ue dá
ter filho fora do tempo! Nós dois já velhos, com filho de
trinta e cinco anos, ter dois pirralhos para criar.
Vanessa – (zombando)Deixa o pai ver TV, mamãe!
D. Graça – Ainda mais gêmeos!
Vanessa e Péricles – Mas de placentas diferentes!
D.Graça – Chega! Os dois para o quarto!
Vanessa – Ah, mãe! É sobre isso que nós queremos
conversar com você!
Péricles – É, mãe! Já que o Evandro
vai casar, quem vai ficar com o quarto dele? Eu ou a relapsa, quer dizer,
eu ou a Vanessa?
Vanessa – Eu ou o que pensa que a nossa casa é um albergue,
pois vive trazendo dezenas de amigos para dentro de casa quando você
está ausente. Se meu pai não estivesse hipnotizado por essa
TV aí, brigaria com ele o tempo todo!
D. Graça – O irmão de vocês ainda nem saiu de
casa! Esperem as coisas acontecerem! E vocês estão muito
“donos da decisão” para o meu gosto! Nem sei se vou
deixar o quarto deles para vocês! Talvez eu alugue!
Vanessa – Alugar o quarto dele?!
Péricles – Quê isso, mãe?!
D. Graça – Isso mesmo! E eu já falei para os dois
irem para o quarto! Andem! Andem! Não vou falar de novo. (pausa)
E não batam a porta do quarto, héin?!
Barulho de porta batendo forte.(faixa 1)
D. Graça – Justino, eu preciso falar com você!
Justino não dá atenção. D. Graça vai
para frente da TV e fica pulando, para chamar a atenção
de Justino.
D. Graça – Justino, eu preciso falar com você!
D. Graça senta do lado dele, desanimada por não ter conseguido
atrair a atenção de Justino, mas tem uma idéia que
a reanima.
D. Graça – Puxa vida! Puxa vida! Vai haver um apagão
na cidade inteira, e tudo que está dentro da geladeira vai estragar!
Toda a cidade vai ficar sem luz. Eu disse TODA A CIDADE VAI FICAR SEM
LUZ BEM NA HORA DO JOGO BARCELONA E REAL MADRI.
Justino – O quê?! O que foi que você disse?!
D. Graça – Caramba! Só assim para chamar a sua atenção
Justino! Olha só! Dá para você desligar a televisão
que eu tenho uma coisa importante para falar com você!
Justino – Um minuto?
D. Graça – Três minutos, Justino! Três minutos!
Justino – Vamos negociar! Nem eu nem você!
D. Graça – Está bem, Justino! Dois minutos!
Justino – Espera um pouquinho.
Justinose prepara para cronometrar o tempo que ficará com a televisão
desligada.
D. Graça – O que você vai fazer com esse relógio,
Justino?
Justino – Ué, vou cronometrar o tempo que a televisão
vai ficar desligada.
D. Graça – Ai Justino, você está pior do que
eu pensava!
Justino – Você é que está pior. Depois que entrou
para Igreja, por influência do nosso filho mais velho, não
vê nenhum programa de televisão junto comigo.
D. Graça – Isso é mentira! Apenas não sou mais
escravo dela! Mas isso é outro assunto! O que eu quero falar com
você, Justino, é justamente sobre o nosso filho mais velho.
Justino – Ah, não quero papo com esse sujeito.
D. Graça – Justino, ele é nosso filho. O fato de ele
estar muito radical com as coisas da Igreja não é motivo
de você ficar sem falar com ele. E ele vai trazer a noiva dele aqui
pela primeira vez para a gente conhecer. E eu vou preparar um almoço
para eles.
Justino – Só mesmo o maluco do meu filho mesmo! Trazer a
noiva para os pais conhecerem uma semana antes de casar.
D. Graça – Não importa, Justino! Ele acha que o momento
da noiva dele se chegar à família é apenas quando
tiver próximo ao casamento. Ele é da opinião que
não adianta à família se apegar à noiva antes.
Ele acha que pode não dar certo o relacionamento e a família
está apegada à moça e...
Justino – (interrompendo) Está bem, Graça, está
bem! Seu tempo acabou, ó! (mostra o relógio) Já passaram
dois minutos! Deixa eu voltar para a minha alegria televisiva!
D. Graça – (resmunga)Alegria televisiva... Deus vai libertar
você dessa escravidão, assim como ele me libertou!
Graça sai de cena.
Justino – (em voz alta) Vai nada. Além disso, Deus gosta
muito da sessão da tarde!
Da galeria, alguém joga uma bola bem em cima da tv, espatifando-a
no chão. Justino fica congelado em cena.(faixa 2)
Narrador (faixa 3)– Será que Justino vai suportar o fato
de ficar sem Televisão bem no dia do clássico Real Madri
e Barcelona? Será que os filhos de Justino terão dinheiro
para comprar outra televisão? E será que o Vanderlei Luxemburgo
não vai tirar o Ronaldinho Fenômeno, mesmo ele jogando mal?
Não percam o próximo capítulo da minha, da sua, da
nossa novela “Rumo ao novo Lar”.
2º Capítulo
Justino congelado em frente à Televisão. Péricles
e Vanessa entram na “sala”, discutindo.
Péricles – Ô pai, não fui eu não! Foi
ela que jogou a bola na televisão, para você pensar que fui
eu que joguei!
Vanessa – E eu lá jogo bola?
Péricles – Pára de mentir, Vanessa! Foi você
que jogou a bola!
Vanessa – Tá bem, tá bem! Eu confesso que fui eu!
Mas quem mandou você deixar essa bola toda cheia de lama bem em
cima da minha cama! Eu fiquei com raiva e taquei ela longe! Agora, se
eu quebrei a televisão, azar. Pelo menos o meu pai vai se libertar
dessa escravidão!
Péricles – Vanessa! Olha para o nosso Pai!
Vanessa – Ué, não tem nada de diferente nessa cena.
Ele estatelado em frente à televisão.
Péricles – É, mas agora ela está quebrada.
Não tem porque dele ficar hipnotizado em frente aos destroços.
Vanessa – Vai ver que ele está tão vidrado nela que
se apaixonou pelo próprio aparelho, e não apenas pela programação.
Mas não vamos perder tempo com isso não. Deixa ele aí
parado. Vai ver que ele está pensando no que fazer. E do jeito
que meu pai é, deve ter um estoque de televisão guardado,
caso aconteça um acidente com esse que aconteceu. Vamos conversar
sobre o nosso plano de assustar a noiva do meu irmão.
Péricles – Shhhhh! Fala baixo! Vai que meu pai escuta e fala
para minha mãe e pro Evandro!
Vanessa – Fala nada! Não está vendo que ele está
em transe, em estado alfa? Ele não está ouvindo nada não,
ó!
Vanessa dá um grito bem perto do ouvido de Justino.
Vanessa – Viu? Presta atenção. Já que minha
mãe vai alugar o quarto, é melhor o Evandro continuar aqui,
do que a gente ter que dividir a nossa casa com algum estranho.
Péricles – É, além disso, com o Evandro longe,
quem vai me ajudar no dever de casa?
Vanessa – Pois é, o plano é o seguinte: estou sabendo
que a tal da noiva do meu irmão vai conhecer os nossos pais pela
primeira vez. O meu pai não gostar dela é fato esperado,
pois ele e o Evandro não estão bem um com o outro. Agora,
se a minha mãe tiver antipatia da futura nora, já viu, né
Péricles? (sorri)
Péricles – Ainda não vi não, Vanessa.
Vanessa – Ô, seu burro! Você não sabe que o primeiro
passo para um casal se dá bem é a mãe ser amiga da
noiva do filho.
Péricles – Puxa, eu pensei que o primeiro passo pro casal
se dar bem é o cara ter dinheiro.
Vanessa – Está bem, Péricles, está bem. Digamos
então que esse seja o segundo passo. Então, eu e você
temos que fazer a caveira da Brida.
Péricles – Brida? E isso é nome de gente?
Vanessa – Olha só quem fala. Brida é o nome de uma
personagem do livro de um cara aí. Essa personagem é aprendiz
de magia e de bruxaria.
Péricles – Taí, Vanessa! A gente pode falar que a
Brida mexe com bruxaria e outras coisas mais. O que você acha?
Vanessa – Não, Péricles. Ela é crente.
Péricles – Ah é? Não tinha pensado nisso. Ah...Mas
os pais dela não. E eu fiquei sabendo que eles têm uns envolvimentos
com essas coisas. Olha só o nome que eles botaram nela. A gente
pode convencer à minha mãe que eles fizeram um feitiço
para que o homem que casar com ela sofra algum mal. O que você acha?
Vanessa – É, faz sentido. Legal, Péricles. Mas só
isso.
Péricles – Não. O resto deixa comigo. Você fica
responsável por fazer a cabeça da minha mãe, depois
que eu colher algumas informações sobre a Brida com o nosso
irmão.
Vanessa – Hummm! Vai ser legal!
Evandro entra em cena.
Evandro – O que vocês dois estão aprontando aí,
héin, Dona Vanessa e Seu Péricles?
Vanessa – Nada não. Só estou dizendo que vou pegar
da minha mesada o dinheiro para concertar a televisão do nosso
pai, já que fui eu que quebrei! Com licença!
Vanessa sai de cena. Justino continua estatelado em frente aos destroços
da televisão.
Evandro – Caramba, Péricles. Vocês quebraram a televisão
do papai?
Péricles – Vocês, não! A Vanessa quebrou.
Evandro – Não, Péricles. Aprenda uma coisa! (entonação
de pregador) Todos nós somos culpados.
Péricles – Ai, Péricles. Depois que você entrou
para igreja você ficou todo certinho.
Evandro – E ser certinho é por acaso algum defeito? Tem mais,
vou levar vocês para lá. Não só vocês
como os pais da Brida.
Péricles – Aí meu irmãozão! Vai casar
com ela, héin! Meus parabéns!
Evandro – Obrigado, Péricles. Obrigado! O homem, quando casa,
sai da sua casa para formar com a mulher uma só carne.
Péricles – Vocês vão montar algum açougue
juntos?
Evandro – Não, Péricles. (...) Depois eu explico isso
para você! Agora eu tenho que cuidar dos preparativos do almoço
com minha mãe. A Brida vem almoçar hoje com a gente.
Péricles – É, Péricles, eu posso fazer algumas
perguntas sobre ela para você?
Evandro – Claro, meu irmãozinho.
Péricles – A Brida cozinha bem?.
Evandro – Por que você está querendo saber isso?
Péricles – Sabe o que é, Evandro? A minha mãe
está preocupada se você vai ser bem tratado pela Brida, mas
está com vergonha de perguntar essas coisas e fica comentando o
tempo todo isso com a gente.
Evandro – É mesmo. A mamãe nem toca nesse assunto
comigo. A Brida cozinha bem sim, Péricles. E aprendeu com a mãe
dela.
Péricles – Como é que é?
Evandro – Ela aprendeu com a mãe dela!
Péricles – (maquiavélico) Obrigado, Evandro.
Evandro – Hã... (sem entender muito bem) De nada!
Péricles – Ah, ô Evandro. Eu sei que aliança
você já deu para a Brida. Mas você não acha
melhor, hoje que uma ocasião especial, você comprar uma flor
tanto para a Brida quanto para a mamãe, já que você
precisa mostrar que você ama as duas, e não vai deixar de
amar a nossa mãe porque vai casar, nem vai querer que a Brida seja
sua segunda mãe, e sim sua esposa.
Evandro – Boa idéia, Péricles. Puxa vida. Você
está se saindo um superdotado de inteligência, héin,
irmãozinho. Tchau.
Evandro sai de cena. Justino continua estatelado em frente à TV.
Péricles, maquiavélico, vai bolando um plano, “pensando
em voz alta”. (faixa 4)
Péricles – Que beleza. Aí a gente vai induzir a maior
confusão entre os dois. Entre os dois não, entre os três.
Duas mentes pensando o mal pensam melhor e...
Vanessa – (entra em cena) E aí, Péricles.
Péricles – Ai, que susto, Vanessa...
Vanessa – Aiii! Desculpe.
Péricles – (respira fundo) Ai...Ta bom! Se liga na idéia,
Vanessa. Fiquei sabendo que a Brida aprendeu a cozinhar com a mãe
dela.
Vanessa – E daí?
Péricles – Daí que temos que induzir à Brida
a falar, bem na hora do almoço que a seguinte frase: “Eu
fui aprendiz da minha mãe”.Essa frase vai ser a deixa para
que minha mãe faça alguma coisa que assuste a Brida para
afasta-la de vez do Evandro.
Vanessa – Mas o que vai levar à nossa mãe a fazer
isso.
Péricles – Aí que entra você na história.
Você tem que tentar convencer a minha mãe que, mesmo a Brida
sendo crente, tem alguma coisa em comum com mãe dela em relação
à feitiçaria.
Vanessa – Ai, Péricles...Será que ela vai acreditar
nisso. Você sabe que agora ela está indo naquela igrejinha
evangélica que meu irmão mandou ela ir. E esse povo não
acredita nessas coisas não.
Péricles – Mas tem uma coisa supersticiosa que esse povo
acredita.
Vanessa – O que, Péricles.
Péricles – Maldição hereditária! (faixa
5)
Vanessa – É mesmo! Então eu tenho que convencer ela
dentro desse assunto.
Péricles – Isso aí, Vanessa. Capricha! Quando você
quer, você consegue!
Vanessa – Deixa comigo!
Péricles e Vanessa saem de cena. Justino, assobiando tranqüilamente
tira os “destroços do aparelho de televisão quebrado”
de cena e volta carregando outro ENORME, de 52 polegadas. Liga o novo
aparelho e senta em frente a ele, tranqüilamente (faixa 6 em “repeat”
até que Justino substitua a TV quebrada pela TV nova)
Narrador (faixa 7) – Será que Péricles e Vanessa vão
conseguir convencer a mãe deles a acabar com o casamento de Evandro?
Será que Justino vai conseguir sair da frente da televisão?
Será que a D. Graça vai deixar o feijão queimar?
Não percam o próximo capítulo da nossa eletrizante
novela “Rumo ao novo Lar”.
3º Capítulo
Narrador (faixa 8)– No capítulo anterior, Péricles
e Vanessa fizeram o plano para espantar Brida, a moça que será,
em nome de Jesus, a futura esposa de Evandro. Vanessa vai tentar convencer
sua mãe a espantar Brida, pois sabe que tudo começa mal
num casal quando a mãe do noivo não se dá bem com
a nora, e vice-versa. Justino estreou sua nova televisão de 52
polegadas. E Evandro não sabe se volta, pois é metódico
até na hora de comprar flores. Fiquem com mais um capítulo
da novela cristã “Rumo ao novo Lar”.
Em cena, Vanessa, D. Graça e Justino em frente à sua Super
TV.
D. Graça – Justino! O quê é isso, homem de Deus?
Justino – Ué, mulher. Lembra daquela enorme caixa que eu
guardava a sete chaves e não deixava ninguém mexer? É
a Antonieta. (apresenta a televisão para a mulher) Antonieta, Graça,
Graça, Antonieta.
Vanessa – Só mesmo o meu pai para botar nome numa televisão.
D. Graça – E porque você não ligou ela logo?
Justino – Estava esperando a velha Gordofreda dá os últimos
suspiros de vida.
Vanessa – Mãe, deixa o pai, que ele é um caso perdido.
Eu quero falar com a senhora sobre a vinda da Brida aqui, a noiva do meu
irmão. A senhora sabia que o pai dela é envolvido com feitiçaria
e bruxaria?
D. Graça – Ah, minha filha. Agora eu sou crente. Não
acredito mais nessas coisas não.
Vanessa – Ah é! Pois fique sabendo que crente acredita em
maldição hereditária!
D.Graça – É mesmo?
Vanessa – É mesmo! Pode perguntar a qualquer um aí!
(aponta para o público)
D. Graça – Não sabia que os crentes acreditavam nisso
aí não. E... como é que você sabe disso, Vanessa.
Vanessa – (sem ação) Ora...Ora...É...é
só ver nos dez mandamentos.
D. Graça – (desconfiada) Nos dez mandamentos?
Vanessa – (para ganhar tempo e pensar numa idéia) É,
nos dez mandamentos! Lê ele para mim na Bíblia. A senhora
sabe onde está?
Vanessa – O seu irmão mais velho marcou aqui para mim. Vamos
ver. (pega uma bíblia e abre em Êxodo 20:1) Então
falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que
te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás
outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida,
nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo
na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás
diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou
Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até
a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e faço
misericórdia com até mil gerações daqueles
que me amam e guardam os meus mandamentos.
Vanessa – Aí, tá vendo?!
D. Graça – Aí o quê, Vanessa?
Vanessa – Aí, mãe! Não prestou atenção
no que você leu? Ele, Deus, visita a iniqüidade dos pais nos
filhos até a terceira e quarta geração! Isso á
maldição hereditária, mãe! (suspira aliviada).
D. Graça – É mesmo, minha filha. Eu pensei que você
estivesse com ciúmes da noiva do seu irmão. Que mãe
desnaturada que eu sou! (pausa) Meu Deus! Meu filho vai ser amaldiçoado
por tabela e eu não posso fazer nada!
Vanessa – Pode sim, mãe! Claro que pode! Fique sabendo que
o primeiro passo para uma relação ir por água abaixo
é a mãe se dá mal com a nora.
D. Graça – O que você quer dizer com isso?
Vanessa – Ora, mãe, faça algo para espantar a Brida
hoje, na hora do almoço.
D. Graça – Ai, não posso fazer isso não, Vanessa.
Apesar de não conhecer a menina, fiquei sabendo que ela é
uma boa moça. Além disso, ela não tem culpa nenhuma
de os pais dela serem envolvidos com essas coisas.
Vanessa – E se ela disser para senhora que um dia (se aproxima da
mãe dela, com ar de maquiavélica) Ela já foi uma
aprendiz de bruxa.
D. Graça – Ai, Vanessa, assim você me assusta. (pausa)
Tá bem, Vanessa. Se a Brida confessar hoje que já foi aprendiz
de bruxa, eu prometo que faço algo para espanta-la. Com muita dor
no coração, mas faço.
Vanessa – É isso aí, mãe! (abraça-a)
Vamos fazer tudo o que está ao nosso alcance para livrar o meu
irmão dessa maldição por tabela.
Vanessa sai de cena, vibrando.
D. Graça – Ai, meu Deus. O que eu faço? Já
sei! Vou ligar para a irmã Dindinha, que é especialista
em sessão de descarrego.
Pega o telefone.
D. Graça – (faixa 9)Oi, irmã Dindinha! É a
Graça que está falando. Tudo bom? (faixa 10)Olha só,
eu estou com um problemão. Meu filho vai casar com uma moça
que tem uma maldição hereditária e eu estou com medo
dessa maldição passar par o meu filho. (faixa 11) A minha
filha disse para eu fazer alguma coisa para espantar ela. (faixa 12) Ah,
o que eu tenho que espantar é o demônio que está dentro
dela. Entendi. E então eu tenho que fazer o quê? (faixa 13)
O quê. Irmã Dindinha? Mas isso vai espantar inclusive a minha
família. (faixa 14) Então está bem! Tchau, irmã!
(faixa 15) Até mais tarde na igreja no na corrente dos desesperados.
(faixa 16)
Desliga o telefone.
D. Graça – Ai, não acredito que eu tenho que fazer
isso. Bom, vale tudo para a felicidade do meu filho. Deixa-me ver a comida,
que está quase pronta.
D. Graça sai de cena. Justino continua estatelado em frente à
TV. Péricles e Vanessa entram em cena.
Péricles – Como foi a conversa com a mamãe, Vanessa?
Vanessa – Meu irmão! Dei um tiro no escuro e acertei na mosca.
Mas está tudo certo. Só temos que fazer a Brida dizer que
foi aprendiz da mãe dela.
Péricles – É isso aí!
Evandro entra em cena com Brida.
Evandro – Gente, gente! Olha só! Saí para comprar
flores e encontrei no caminho a minha flor.
Péricles e Vanessa – Ai que lindo!
Evandro – Olha, Brida, esses são os meus dois irmãos
mais novos.
Brida – Ai, que gracinha! São gêmeos?
Péricles e Vanessa – Mas de placentas diferentes.
Evandro – Eles sempre respondem assim quando fazem essa pergunta.
Vem aqui, Brida, que vou apresentar meu Pai. Olha pai, essa é Brida,
minha noiva. Brida, esse é o Justino, meu pai.
Brida – Prazer, seu Justino.
Seu Justino só dá um grunhido.
Justino – Hummm!
Evandro fica um pouco constrangido com a frieza do pai e disfarça.
Justino – Vem Brida, vem conhecer minha mãe.
D. Graça entra em cena trazendo a comida pronta em tigelas.
D. Graça – Oi, Brida. Tudo bom. Prazer!
Brida – O prazer é todo meu.
D. Graça – Andem, crianças, me ajudem a botar a mesa.
Vanessa e Péricles saem de cena.
Evandro – Vem, pai, almoçar.
Justino caminha de costas, de modo a não ficar nenhum momento sem
olhar para a televisão. Senta na cabeceira da mesa de frente para
a televisão. (Justino caminhando ao som da faixa 17)
Vanessa e Péricles chegam com pratos nas mãos, colocando-os
sobre a mesa.
Vanessa – Diga-me, Brida. Você sabe cozinhar?
Brida – Sei sim. Bom, não deve ser igual à comida
da mãe de vocês, pois o Evandro não cansa de falar
bem dela.
Vanessa – Dela quem?
Brida – Ora, da comida da mãe de vocês. Eu fui aprendiz
da minha mãe.
(faixa 18)
Péricles – O quê?
Brida – Eu fui aprendiz da minha mãe.
Péricles – Brida, repete isso quando a minha mãe chegar,
pois ela vai ficar feliz em saber que o filho dela vai se casar com uma
moça que sabe cozinhar.
D. Graça entra em cena com mais uma tigela de comida.
Vanessa – Fala para minha mãe, Brida, o que você nos
disse.
Brida – Ô, Dona Graça, eu fui aprendiz da minha mãe.
Pode deixar que eu sei preparar tudo, tudo!
Vanessa – Entendeu mãe?
D. Graça – Claro, minha filha! Claro!
D. Graça sai de cena.
Evandro – Olha aqui, Brida, não repare não, mas a
minha mãe faz questão de que você prove logo a comida
dela. Ela é um pouco assim, ansiosa. Mas Deus vai libertar ela
disso também.
D. Graça chega com uma tigela cheia de um creme e joga tudo em
cima de Brida. A cena se congela.
Narrador (faixa 19)– – Será que Brida vai resistir
a essa provação? Será que ela vai compreender que
foi um acidente ou vai acusar a família de Evandro de uma conspiração
contra ela? Não percam o último capítulo da nossa
novela “ Rumo ao novo Lar”. Ou quem sabe, “Rumo à
delegacia”.
Último Capítulo
Narrador Hoje é o último capítulo da nossa novelinha
“Rumo ao Novo Lar”. O que será que vai acontecer? Faremos
um breve resumo, para recordamos dos primeiros capítulos. Evandro
quer se casar com Brida. Ele preferiu apresenta-la à família
apenas alguns dias antes do casamento, para que a família não
apegasse a ela em vão, caso alguma coisa desse errado antes do
casamento. Parece que não foi uma boa idéia de Pedro, pois
seus irmãos, Péricles e Vanessa, aprontaram uma traquinagem
exatamente no dia que Evandro apresentou Brida à família.
Os dois pestinhas ainda envolveram a sua mãe, Dona Graça.
Se Justino não está nem aí. Só está
mesmo ligado no jogão de bola Barcelona versus Real Madri, transmitido
ao vivo pela televisão, bem na hora do almoço solene. Dona
Graça deixa de propósito seu creme de Espinafre com doce
de leite cair sobre a pobre Brida. Nós vamos repetir essa cena,
para que você, meu caro espectador, não perca nenhum detalhe
dessa novelinha, e também pelo prazer de ver a FULANA, nossa atriz
do Ministério de Teatro da Igreja Batista da Barra do Imbuí,
se sujar de novo. Mas ela faz isso com prazer.
Todos posicionados como a cena final do capítulo anterior, congelados.
D. Graça deixa o creme cair sobre Brida. Todos ficam surpresos,
olhando a cena. Ela, cambaleante e sem enxergar, caminha em direção
à TV de 52 polegadas e a joga no chão. (faixa 20)
Vanessa – (espantada) Gente, acho que a Brida foi enviada por Deus
para libertar o meu pai da escravidão da televisão.
Péricles – Ih, acho que agora o meu pai explode! Ele está
guardando essa explosão há anos.
Justino, numa calma que lhe é peculiar, pega um radinho de pilha,
sintoniza-o e permanece alheio aos acontecimentos ao seu redor. (faixa
21)
Brida, mesmo cheia de creme na cara, se aproxima de Justino.
Brida – Seu Justino! O que o senhor está escutando aí?
Justino – Ah, minha filha...Os bastidores do jogo do Flamengo.
Brida – Puxa, o senhor torce para o Flamengo? Eu também;
Justino – Que legal, minha filha! Temos algo em comum.
Brida – O seu filho nunca falou do senhor para mim. Só falou
da sua mãe.
Péricles, sussurrando à Vanessa.
Péricles – Ela está conseguindo estabelecer contato
com o meu pai.
Vanessa – Shhhhhhhhh! Vamos escutar.
Péricles – É, minha filha. Depois que ele entrou para
igreja, ele não liga mais para mim não. Só porque
eu não penso da mesma maneira que ele pensa e não sei debater
esses assuntos de igreja.
Evandro – Não é verdade!
Brida – Evandro! Depois nós conversamos. (tom) Seu Justino.
Você também deve ter um pouco de culpa! O senhor só
dá atenção para a televisão! Talvez seja por
isso que a sua família não lhe dá mais atenção.
A televisão é boa só quando ela não nos escraviza.
Olha só, eu tive uma idéia. Estou com meu carro aí
fora e estou com vontade de ir ao jogo do mengão.
Justino – Você gosta de jogo?! Puxa, o Evandro nunca me falou
nada!
Evandro – Eu ia falar mas o senhor...
Brida – Shhhh! Evandro! Depois! (pausa) Vamos, seu Justino.
Justino – Não quer se lavar, minha filha?
Brida – Eu me lavo lá em casa, pois eu tenho que passar lá
para comer alguma coisa. Aí eu aproveito para apresentar o senhor
para os meus pais.
Brida e Justino saem de cena.
Péricles – Pôxa! Estou começando a admirar a
minha cunhadinha. Ela conseguiu tirar o papai de casa. Tá vendo,
Vanessa, como a Brida é legal, e não tinha nenhuma necessidade
de fazer isso?
Vanessa – Shhhhhhhh!
Evandro – Fazer isso o quê?
Péricles – Ué, convencer a minha mãe a jogar
a comida dela em cima da Brida de propósito.
Vanessa – (a Péricles) Foi você que deu a idéia!
Péricles – Foi você!
Vanessa – Foi você seu mentiroso.
Evandro – (aos berros) Saem os dois daqui agora!!!!!!!!
Evandro caminha devagar para perto da mãe, decepcionado.
Evandro – Mãe! É verdade essa história que
o Péricles contou?
D. Graça – Eu explico, meu filho! Eu explico! Olha só,
a sua irmã, não sei como, conseguiu me provar na Bíblia
que existe maldição hereditária.
Evandro – Como? Ela nem conhece a Bíblia.
D. Graça – Eu sei! Mas ela me mandou abrir nos dez mandamentos
e estava lá, quer ver?
D. Graça apanha a Bíblia.
D. Graça – Olha aqui. Êxodo 20, versículos 5
e 6. “...porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito
a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração
daqueles que me odeiam, e faço misericórdia com até
mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”.
Pôxa, eu fiquei sabendo que ela tem pais metidos com bruxaria e
pensei que você ia ser amaldiçoado por tabela. Além
disso, ela falou na mesa que era aprendiz da mãe dela.
Evandro – Ela aprendeu a cozinhar com a mãe dela, mãe!
Outra coisa! Lê o fim dessa passagem: “e faço misericórdia
com até mil gerações daqueles que me amam e guardam
os meus mandamentos”. A Brida passou a amar a Deus, mãe.
Logo, ela terá até mil gerações abençoadas.
D. Graça – É, só que esse mandamento só
diz que as gerações da pessoa será abençoada,
e não a própria pessoa. Além disso, os pais dela
ainda estão vivos e cheios de envolvimentos com bruxaria.
Evandro – Tá bem, mãe! Te mostro outro versículo!
Deuteronômio 24, versículo 16. “Os pais não
serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais;
cada qual será morto pelo seu pecado”. Mãe, esse negócio
de maldição hereditária e superstição.
Deixa isso para lá! Vai ficar dando ouvidos a minha irmã
de quinze anos, mãe?
D. Graça – (faixa 22)Mas não é só isso.
(pausa) Eu confesso que estou um pouco abalada com a sua saída.
Hã.(suspira) Meu filho agora vai ter outra mulher para cuidar dele.
Eu confesso que fiquei um pouco abalada.
Evandro – Ô, mãe. Você está com ciúme?
D. Graça – Não é ciúme, meu filho. Já
é saudade de você. Só isso!
Evandro – Que isso, mãe. Eu não vou morrer, só
vou morar em outra casa. Olha aqui. Estou com essas duas flores que eu
comprei, uma para dar para você e outra eu ia dar para a Brida.
Mas eu vou dar para você as duas. Uma para minha mãe chamada
Graça e outra para a minha amiga chamada Graça.
D. Graça – Obrigado, meu filho.
Os dois se abraçam.
Evandro – Mãe, nós temos que dar uma bronca no Péricles
e na Vanessa!
D. Graça – Ah, claro meu filho! Eu vou chamar os dois. Péricles!
Vanessa! Venham já aqui!
Péricles e Vanessa entram em cena.
D. Graça – Olha aqui, seus pestinhas. Eu só vou perguntar
uma vez. De quem foi a idéia de fazer isso com a Brida?
Ambos se acusam. Durante a mútua acusação, Justino
e Brida entram em cena.
Evandro – Ué! Vocês já voltaram?
D. Graça – E o jogo.
Justino – Meu filho! Parabéns pela sua noiva. Ela falou de
Jesus para mim do jeito que eu nunca escutei na minha vida! Você
tem uma noiva muito sábia! Parabéns!
Justino aperta com força a mão de Evandro. Depois, se dirige
a Péricles e Vanessa.
Justino – E quanto a vocês dois, nós vamos ter uma
conversinha. Já para o quarto! Vamos lá, um, dois, um, dois,
um, dois...
Justino, Péricles e Vanessa saem de cena.
Evandro – Brida, eu estou espantado! Como você consegui fazer
meu pai mudar os seus conceitos assim tão rapidamente?
Brida – Evandro, eu só usei aproveitei para falar das coisas
de Deus usando o mundinho que ele vive, que é a Televisão
e o Flamengo, com termos bíblicos como “a moderação
em tudo é boa”, “todas as coisas são lícitas,
mas não nos deixemos nos dominar por nenhuma delas”, além
de falar que existem também os atletas de Cristo. Fiz me fraca
para com os fracos, e acabei ganhando o Seu Justino para Cristo.
D. Graça – Mas porque vocês voltaram? Vocês não
estavam indo ao jogo.
Brida – Bom, na verdade, viemos buscar vocês para irem ao
jogo conosco, não é, seu Justino?
Justino, Péricles e Vanessa entram em cena.
Justino – É isso aí, minha filha! Toda a família
hoje vai ao jogo, contendo os excessos e retendo só o que for bom
nesse tipo de diversão. Somos uma família flamenguista,
sim, mas acima de tudo...
Todos – Unidas no Senhor!
Todos saem de cena, cantando.
Fim
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